Moradores temem que rio Acre volte a encher de repente

O rio Acre, que banha Rio Branco, está baixando. Entre a manhã de terça-feira e esta quinta passou de 16,72 para 15,20 metros, mas isto não representa um sinal verde para o retorno das mais de duas mil famílias que estão em abrigos. Elas deverão esperar pelo menos mais uma semana. Neste tempo a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil vai avaliar se os imóveis não apresentam riscos e tentar prevenir os casos de leptospirose. Também há o perigo de um repiquete, fenômeno batizado pelos ribeirinhos quando o rio volta a encher inesperadamente depois de uma vazante. "Em março de 1997 o rio subiu a 17,66 metros. Uma semana depois baixou para 14,42 metros. As famílias voltaram e o rio tornou a subir para 16,53", contou o coronel Gilvan Vasconcelos, coordenador da Defesa Civil. Na tarde desta quinta-feira o governador Jorge Viana levou ao ministro da Integração Regional, Ciro Gomes, o Relatório de Avaliação de Danos (Avadan) elaborado pela Defesa Civil. Numa estimativa preliminar, o relatório aponta que serão necessários R$ 32 milhões para recuperar a infra-estrutura urbana e rural. Esta conta não inclui prejuízos globais da enchente. A dona de casa Maria Francisca Oliveira, por exemplo, não se anima com o retorno para sua casa. "Que casa? Perdi tudo o que eu tinha", lamenta enquanto aguarda um barco para a travessia no bairro Taquari. Ao contrário dela, a aposentada Maria do Nazaré, de 77 anos, convencida pela Defesa Civil, deixou sua casa com tempo para levar todos os móveis. Agora a mobília decora seu boxe no Parque de Exposições Castelo Branco onde se encontra a maior parte dos desabrigados. Ao todo, mais de oito mil famílias de 32 bairros foram diretamente atingidas pela cheia. O socorro às vítimas mobilizou mais de 400 pessoas, principalmente servidores de todas as secretarias municipais. Por isso, quem foi às sedes das secretarias não encontrou funcionários. A coleta de entulho foi suspensa, pois 24 dos 25 caminhões da Secretaria de Serviços Urbanos prestavam o socorro às vítimas. Furtos O coordenador municipal da Defesa Civil, Gilvan Vasconcelos, lembra que algumas famílias recusaram-se a sair de casa temendo furtos. Não sem razão, pois logo o delegado-geral de Polícia Civil, Walter Prado, teve que improvisar uma patrulha aquática em parceria com o Pelotão Ambiental. "Os bandidos estavam roubando até portas e janelas das casas", informou. Com a patrulha os crimes cessaram e não houve nenhum flagrante. As cheias no Acre, como na Amazônia, são fenômenos imprevisíveis, mas comuns e todas deixam histórias. A de 1987, por exemplo, causou vítimas e um escândalo político. Doações de várias partes do mundo chegaram a Rio Branco e provocaram briga entre adversários que acusavam o desaparecimento de queijos dinamarqueses, leite em pó suíço e batatas fritas norte-americanas. Para evitar suspeita, neste ano as doações serão administradas por um comitê criado pelo prefeito Raimundo Angelim reunindo 15 entidades. Está prevista a distribuição de 44 mil cestas básicas e uma tonelada de medicamentos para 13 mil famílias. As crianças receberam hoje uma dose de vacina contra o rotavírus, infecção que matou oito crianças em Rio Branco em 2005 e outras 12 em todo o Estado. FGTS As vítimas da enchente que tiveram suas casas danificadas e têm saldo do FGTS poderão sacá-lo. Precisam apenas levar à Caixa Econômica Federal um laudo elaborado pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil.

Agencia Estado,

23 Fevereiro 2006 | 20h31

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