Morre delegado que levou tiro dentro de delegacia

O delegado titular do 8º Distrito Policial de Campinas, Talmir Russo Boavista, de 61 anos, morreu hoje de manhã, às 6h, no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para onde foi levado após ter sido baleado pelo borracheiro Severino Manoel dos Santos, que se matou em seguida. O corpo de Boavista foi velado na Delegacia Seccional de Campinas e enterrado no Cemitério Santo Antônio, no final da tarde.A tragédia provocou indignação nos parentes, colegas e amigos do delegado. O borracheiro procurou a delegacia, por volta das 9h30 da terça-feira, dizendo que queria entregar uma arma porque havia brigado com a mulher e temia cometer um ato irracional. Os policiais o orientaram a deixar o revólver no distrito. Ele explicou que iria buscá-lo e retornaria em seguida. Menos de três horas mais tarde, Santos voltou ao distrito com a arma em punho, disparou contra o delegado, que estava na recepção da delegacia, de costas para a porta, falando ao telefone. Em seguida, atirou contra a própria cabeça e morreu no local. O tiro atingiu a nuca de Boavista e saiu pela testa. Ele foi operado e permaneceu dois dias internado na UTI do Hospital, mas não resistiu à gravidade do ferimento. Santos morava no bairro Vila Anchieta, onde fica o 8º DP. O caso foi encaminhado ao Setor de Homicídios, que ouviu os policiais e as pessoas que estavam na delegacia no momento do crime. Também prestaram depoimento vizinhos e parentes do borracheiro. Eles revelaram que o agressor era dependente químico de entorpecentes. A polícia aguarda ainda o resultado de exames toxicológicos solicitados pelo delegado interino Ricardo de Lima, que permanecerá no cargo até nova nomeação. Cerca de mil pessoas passaram pelo velório de Boavista. A família permaneceu quase o tempo todo ao lado do caixão. "Não tenho como descrever nosso sofrimento. Foi uma fatalidade que não pôde ser evitada", disse o filho do delegado, o advogado Gustavo Boavista. O delegado seccional de Campinas, Miguel Vogt, impediu que a imprensa se aproximasse dos outros parentes, alegando que eles não queriam falar. E também se recusou a atender a reportagem. Para o diretor do Departamento de Polícia Civil do Interior (Deinter) 2, Laerte Goffi Macedo, a morte de Boavista foi um caso isolado e uma fatalidade. O diretor afirmou que não houve falha na segurança da delegacia ou dos policiais que estavam de plantão. "Pode acontecer em qualquer local, não foi possível prever nem impedir. Tudo aconteceu em segundos. É inexplicável", alegou Macedo. Ele elogiou o trabalho de Boavista, dizendo tratar-se de um profissional eficiente, dedicado e querido pelos colegas. "Foi um choque muito grande para todos", lamentou.O chefe da assistência policial do Gabinete da Secretaria Estadual de Segurança Pública, Marco Antonio Ribeiro de Campos, que representou o secretário Saulo Abreu Filho, lembrou que os riscos são inerentes à função de policial, mas também lamentou o episódio. "É péssimo. Foi uma passagem terrível, principalmente para a família. Ficamos muito tristes", disse.Campos também negou falta de segurança no distrito. Mas essa não é a opinião do presidente da Associação Estadual de Delegados de Polícia, Carlos Eduardo Benito Jorge. "Se as delegacias tivessem um número adequado de funcionários, esse episódio talvez pudesse ter sido evitado. O Estado precisa olhar melhor seus funcionários", afirmou. Jorge informou que a associação irá acompanhar as investigações do caso. Para o presidente da Associação Nacional de Delegados de Polícia, Jair Cesario da Silva, colega de concurso de Boavista, a impunidade leva a atos como o do borracheiro. Ele explicou que atua junto ao Congresso Nacional um aperfeiçoamento das leis para garantir melhores condições de trabalho aos policiais e reduzir os riscos. "É preciso que a sociedade tenha na polícia um aliado essencial", concluiu.

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