Morre em SP um dos fundadores da Mocidade

Internado desde a apuração, Juarez ia a todos os ensaios e presidia Academia dos Baluartes do Samba

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

04 de março de 2009 | 00h00

Uma semana após tornar-se a campeã do carnaval, com um samba-enredo em que destacava o coração, a Mocidade Alegre, no bairro do Limão, zona norte de São Paulo, voltou a ficar com a quadra cheia. Desta vez, quase 2 mil pessoas foram prestar a última homenagem a um dos fundadores da escola, Juarez da Cruz, de 78 anos.Ele começou a passar mal durante a disputa de votos acirrada entre a Mocidade e a Vai-Vai. Era a primeira vez que ele não acompanhava a apuração no sambódromo. Juarez teve uma arritmia e foi encaminhado ao hospital. Internado, não resistiu a uma parada cardíaca na madrugada de ontem.O sepultamento seguiu o ritual concedido aos grandes sambistas. À frente do cortejo, representantes de todas as escolas do Grupo Especial e também do Grupo de Acesso traziam as bandeiras de cada agremiação. Mais de 300 pessoas seguiam em um silêncio quebrado apenas pelo toque do surdo a cada minuto. A pedido do próprio Juarez, que queria samba no seu funeral, uma bateria com 20 ritmistas começou logo a tocar o samba-enredo de 1980. Depois, foi cantado o samba deste carnaval.Após o sepultamento, os representantes das escolas formaram uma meia-lua e reverenciaram o sambista. Em seguida, componentes da ala das baianas, vestidas com uma roupa branca e um turbante negro, acenderam uma vela na cabeceira do túmulo.OPINIÃOQuase todos os domingos, Juarez ia à quadra, onde ficava sentado em uma cadeira, assistindo ao ensaio. Toda a escola passava durante a evolução e o reverenciava. Além de fundador, ele foi presidente por vários anos da Mocidade. Também foi eleito presidente da Academia dos Baluartes do Samba, criada pela Liga de Escolas de Samba em dezembro.Juarez costumava dar palpites e conselhos em relação à escolha dos sambas-enredo, fantasias e carros alegóricos. "Aprendi a liderar uma escola com mais de 3 mil componentes com ele. Eu gostava de ouvir a opinião dele, que era um tantinho mandão. Sempre prevalecia o que ele achava", conta a presidente e sobrinha Solange Bichara. Com jeitinho, entremeando as frases com "por favor", "obrigado " e "nós", ele conseguia impor seu ponto de vista na agremiação, na família e com os amigos. "Ele mandava com jeito. Tinha um grande poder de persuasão", conta o amigo Benedito José Alves do Carmo, de 75 anos, que conheceu o sambista quando a escola ainda era um bloco que saía pelas ruas do Bom Retiro. "Com esse jeito mandão, ele zelava pela história da escola como um pai", diz o carnavalesco Sidnei França.A Mocidade, que já fez um samba-exaltação para Juarez, pretende fazer uma homenagem a ele no samba-enredo do próximo ano. E avisa: quer conquistar novamente o campeonato. FRASESBenedito José do CarmoAmigo"Ele mandava com jeito. Tinha grande poder de persuasão"Sidnei FrançaCarnavalesco"Zelava pela escola como um pai"Solange BicharaPresidente e sobrinha"Eu gostava de ouvir sua opinião"

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