Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Morre o ex-presidente Itamar Franco, fiador da estabilidade

Presidente do País após impeachment de Collor, senador foi responsável por garantir transição institucional e ajudar na criação do real

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

O senador Itamar Franco (PPS), presidente da República de 1992 a 1994, morreu ontem de manhã, aos 81 anos, em São Paulo, vítima de leucemia. Ele estava internado no Hospital Israelita Albert Einstein desde o dia 21 de maio e permanecia licenciado de suas atividades no Senado. Nos últimos dias, o senador apresentou um quadro de pneumonia grave e foi transferido para a UTI. Nas últimas horas de vida, foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) e entrou em coma. Segundo o hospital, Itamar morreu por volta das 10h15 da manhã.

O corpo será transportado de São Paulo para Juiz de Fora (MG) hoje por um avião da Força Área Brasileira (FAB) e velado na Câmara Municipal. Posteriormente, seguirá para o Palácio da Liberdade, histórica sede do governo mineiro até o ano passado, em Belo Horizonte, onde será cremado amanhã. As cinzas serão levadas para Juiz de Fora e colocadas no túmulo da mãe do ex-presidente. A Presidência da República decretou luto oficial por sete dias.

A presidente Dilma Rousseff colocou à disposição o Palácio do Planalto para a realização das cerimônias, mas segundo amigos de Itamar, a família optou por manter os funerais nas duas cidades que mais marcaram a trajetória do senador. O Planalto confirmou a presença de Dilma no velório em Belo Horizonte.

Apesar de ser baiano no registro civil, Itamar se tornou um dos mais destacados políticos mineiros das últimas décadas.

Plano Real. Itamar morreu um dia depois do aniversário daquela que é apontada como sua grande obra para o País, a criação do real, moeda que entrou em vigor no dia 1.º de julho de 1994.

Aos olhos do Brasil, Itamar surgiu na eleição presidencial de 1989, como candidato a vice de Fernando Collor de Mello. Terminou por assumir a Presidência após o impeachment de Collor, sob suspeita de irregularidades. Ele deixa uma imagem de fiador deste momento do Brasil, marcado pela democracia a estabilidade econômica.

Mesmo entre os mais críticos, Itamar costumava ser reconhecido pela retidão ética. "A Nação pode estar certa de que não haverá corruptos neste governo", disse ao assumir o cargo de presidente em 1992.

Igual reconhecimento ele sempre cobrou em relação ao legado da estabilidade do País no aspecto econômico, com o lançamento do Plano Real durante seu governo, e política, com a transição bem-sucedida para Fernando Henrique Cardoso após o desastroso desfecho da gestão Collor.

Com seu indefectível topete, o ex-presidente chamava atenção pelo estilo intempestivo, muitas vezes enigmático. Como político, o engenheiro Itamar gostava dos cálculos bem pessoais. Orgulhava-se de ter sido fundador do MDB, posterior PMDB, mas não fazia cerimônia: deixava o partido toda vez que seus interesses eram contrariados. Prova disso é que foi eleito no ano passado para seu último cargo, de senador, pelo PPS.

O ex-presidente sentia-se melindrado facilmente e não raro surpreendia aliados com rompantes de fúria. Atribui-se a Tancredo Neves a frase de que ele guardava o "ódio na geladeira".

Itamar nasceu em 28 junho de 1930 a bordo de um navio de cabotagem, no mar entre o Rio de Janeiro e Salvador. A mãe, dona Itália Cautier, havia ficado viúva de Augusto César Stiebler Franco pouco antes do nascimento do filho e o registrou na capital baiana, onde vivia um tio.

Itamar tomou gosto pela política em Juiz de Fora (MG), origem de sua família. Concluiu o curso Engenharia Civil em 1955 e naquele mesmo ano estreou na política filiando-se ao PTB. Alcançou o primeiro cargo público, a Prefeitura de Juiz de Fora, já filiado ao antigo MDB após o golpe militar de 1964. Em 1974, foi eleito senador por Minas pela primeira vez.

Em 1989, antes de encerrar o segundo mandato, aceitou o convite do então jovem governador de Alagoas, Fernando Collor, para compor como vice a chapa vitoriosa na eleição de 1989. O senador por Minas deixou então o PL e ingressou no obscuro Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Mas rusgas com Collor começaram ainda na campanha.

Itamar assumiu formalmente a Presidência em dezembro de 1992. Propôs uma política de entendimento nacional, mas sua gestão derrapava na escolha do primeiro escalão. Para analistas, o momento crucial do governo foi a nomeação de FHC para a Fazenda. Em março de 1994, foi lançada a Unidade Real de Valor (URV) - índice que fez a transição do regime inflacionário para o da estabilidade econômica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.