Morre Orestes Quércia, aos 72 anos

Ex-governador de São Paulo, que sofria de câncer na próstata, desistiu de concorrer ao Senado na última campanha após ser internado

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Após longo período de internação, o ex-governador Orestes Quércia morreu no início da manhã de ontem, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Ele tinha 72 anos e sofria de um câncer de próstata.

O corpo foi velado a partir da tarde de ontem no Palácio dos Bandeirantes, e o enterro estava programado para a manhã de hoje, às 9h, no Cemitério do Morumbi, na capital paulista.

Quércia foi vereador, deputado estadual, prefeito, senador, vice-governador e governador. Sempre concorrendo pelo voto direto, nunca perdeu uma eleição até 1986, quando saiu do terceiro lugar nas pesquisas para vencer Antônio Ermírio de Morais e Paulo Maluf na disputa do pelo Palácio dos Bandeirantes. Fez o seu sucessor, Luiz Antônio Fleury Filho, em 1990, mas daí para a frente só amargou derrotas - ao se candidatar a presidente da República em 1994, a senador em 2002 e, por mais duas vezes, a governador, em 1998 e em 2006.

Paulista de Igaçaba, então distrito de Pedregulho, na região de Franca, era um caipira do interior, como gostava de se definir, orgulhoso de suas raízes, mesmo quando já era um empresário rico e político de prestígio. Dividia o tempo entre seus apartamentos de Campinas e da capital, mas não esquecia a roça, suas lavouras de café e suas cabeças de gado. Os investimentos imobiliários e a aposta nos meios de comunicação - jornais, rádios e TVs - vieram com o tempo, no ritmo de sua ascensão na vida pública, em meio a suspeitas de irregularidades, acusações de desvios de recursos e denúncias de enriquecimento ilícito. Enfrentou a onda de processos judiciais como se fosse campanha dos adversários.

Origem. Descendente de imigrantes italianos, Quércia nasceu em 18 de agosto de 1938, filho de Otávio e Isaura, pequenos comerciantes em Igaçaba, de onde a família se mudou sucessivamente para Pedregulho, Franca e Campinas. Começou a trabalhar cedo, aos sete anos de idade, como atendente no armazém da família. Depois foi fazer arreios na selaria do pai. Improvisou uma oficina para recuperar e revender bicicletas quebradas, início de sua trajetória empresarial.

Trabalhou como escriturário, locutor de rádio e repórter de jornal, juntando economias para iniciar seus próprios negócios. Fundou a firma Irmãos Quércia para exploração de dois armazéns em Campinas e, em seguida, se lançou no ramo de imóveis, que se tornaria sua principal atividade.

Vereador aos 25 anos pelo Partido Libertador (PL), cargo então não remunerado, mergulhou de vez na política. Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica, foi eleito deputado estadual já pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que ajudou a fundar em Campinas. Fez dobradinha com Ulysses Guimarães e obteve 14.800 votos. Em 1968, foi eleito prefeito de Campinas (43.500 votos).

Cafeicultor. Foi nessa época que sua família, para a qual havia transferido a administração dos negócios, comprou a Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Pedregulho, para cultivo de café e criação de bois nelore. Nos últimos anos, apostou na qualidade dos cafés especiais, apesar da descrença geral de amigos. Plantou seis milhões de pés de café especial no norte do Estado e lançou um plano para instalação de 11 cafeterias - as lojas Otavio"s, nome dado em homenagem ao pai - começando por São Paulo e Nova York.

No ramo das comunicações, foi dono de emissoras coligadas do SBT em Campinas e em Santos. Foi sócio de emissoras de rádio e proprietário de jornais em Campinas e na capital.

O passo seguinte na política foi a eleição para o Senado, em 1974. Venceu Carvalho Pinto, candidato do regime militar pela Arena, com mais de 4,6 milhões de votos.

Ao cair na mira da Comissão Geral de Investigação (CGI), suspeito de enriquecimento ilícito, escapou à cassação de seus direitos políticos. Segundo o ministro da Justiça do general Geisel, Armando Falcão, foi poupado porque era um senador inofensivo, que apoiava projetos do governo. Para desmentir essa versão. Quércia lembrou sua oposição ao Ato Institucional nº 5, a denúncia do desaparecimento de Rubens Paiva e a defesa dos direitos humanos.

Suspeitas e indícios de corrupção, tanto na Prefeitura de Campinas como no governo, atribularam sua carreira. Foi acusado de desviar mourões do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) para construir cercas em sua fazenda, de importar sem licitação equipamentos eletrônicos de Israel para a polícia, de superfaturar obras do metrô e de cometer irregularidades na privatização da Vasp.

Corrupção. Quércia abriu estradas, investiu no saneamento básico, inaugurou linhas de metrô, mas endividou o Estado e saiu do governo sob acusação de ter quebrado o Banespa (Banco do Estado de São Paulo). Seu nome virou sinônimo de corrupção, mas ele não se abalou. "Foi perseguição política, como ficou provado na Justiça", defendeu-se. Seus bens chegaram a ser bloqueados, mas ele conseguiu se livrar. Era presidente do PMDB em 1991, quando o então governador do Paraná, Roberto Requião, seu companheiro de partido, lançou o serviço telefônico Disque Quércia (depois Disque Corrupção), para receber denúncias contra ele.

Repetia sempre os mesmos argumentos para sua defesa, sem se perturbar, mas perdeu a esportiva no programa Roda Viva, da TV Cultura, em julho de 1994, ao ser questionado por Rui Xavier, coordenador de Política de O Estado de S. Paulo. "O fato de o senhor ter 4% nas pesquisas não é por não conseguir explicar por que enriqueceu?", perguntou o jornalista. Quércia reagiu aos gritos, chamando Xavier de "canalha" e "mistificador".

Em 2002 se candidatou a presidente e acabou em quarto lugar, atrás de Enéas Carneiro, do Prona. Ao se candidatar a senador, em 2010, declarou à Justiça Eleitoral que seus bens somavam R$ 117 milhões.

Em 1993, Quércia entrou em polêmica com os diretores do Estado e do Jornal da Tarde, Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, por causa da publicação de reportagens que denunciavam desmandos administrativos em seu governo e da informação de Armando Falcão de que ele havia sido poupado pela CGI porque colaborava com o governo militar no Senado.

O câncer de próstata que levou Quércia ao hospital, no início de setembro, havia se manifestado já em 1997. Ele optou então por um tratamento de radioterapia, descartando a cirurgia para retirada do tumor.

Os resultados não foram satisfatórios, mas Quércia retomou a vida normal. Continuou se dedicando à política, na direção estadual do PMDB, cujo controle assegurou com o apoio dos diretórios regionais de São Paulo. Divergindo da orientação nacional do partido, que lançou Michel Temer para vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, do PT, ele se aliou ao PSDB de José Serra e Geraldo Alckmin. Candidato ao Senado neste ano, acabou desistindo de concorrer, no hospital, para se tratar da doença.

Homem caseiro, gostava de passar os fins de semana com a família - a mulher Alaíde, médica, e quatro filhos. Fiel aos amigos e assessores, aos quais ajudava em casos de doença e de aperto financeiro, tentava reaproximar-se dos adversários, esquecendo divergências do passado. "O Requião hoje é meu amigo", disse ele em 1994, depois de qualificar como um equívoco a campanha "Disque Corrupção", que o então governador do Paraná fez contra ele.

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