Morro do Rio declara ?guerra? à PM

"É guerra, agora é guerra." Foi assim que um adolescente do Morro do Querosene definiu o confronto entre policiais militares e moradores do Complexo do São Carlos, na zona norte da cidade, após a notícia de que o líder comunitário Alex André, o Dedé, de 25 anos, desaparecido há uma semana, teria sido seqüestrado e morto por policiais do 1.º Batalhão da PM.O morro desceu. Ao longo do dia, pelo menos três ruas foram interditadas com barricadas feitas por moradores, entre elas a Itapiru, uma das principais vias de acesso da zona norte ao centro. Uma padaria foi destruída, um supermercado registrou alguns saques, pelo menos dois ônibus foram incendiados e quatro carros e uma moto, destruídos. O comércio fechou. Homens andavam livremente nas ruas carregando fuzis e metralhadoras.No início da tarde, a polícia cercava todos os acesso à favela. O Batalhão de Choque da PM foi chamado para conter o tumulto, iniciado às 10h da manhã. Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os manifestantes. Houve troca de tiros. Pelo menos três pessoas ficaram feridas, entre elas uma mulher, grávida de seis meses.De acordo com moradores, Dedé fora sequestrado há cerca de uma semana, na saída de um baile funk, por PMs lotados no Batalhão do Estácio. Os policiais teriam exigido R$ 500 mil para liberar o rapaz. Traficantes dos Terceiro Comando, facção criminosa que comanda o São Carlos, teriam feito um rateio nas favelas para juntar o dinheiro. Ainda segundo moradores, os R$ 500 mil teriam sido entregues no domingo. Mesmo assim, uma pessoa não identificada teria telefonado para a família de Dedé, informando que o rapaz estaria morto. A motocicleta dele foi encontrada na Via Dutra, abandonada.Alex André estava interinamente na presidência da associação de moradores e organizava bailes funk na favela. Procurado pelo Estado, o comandante da PM, coronel Wilton Ribeiro, estava numa reunião, segundo assessores. Os ônibus incendiados faziam as linhas 201 (Rio Comprido - Estácio) e 426 (Tijuca - Copacabana). A Assessoria de Imprensa das Sendas informou que o fechamento do supermercado ocorreu por recomendação da PM, como medida preventiva, e que "não foram contabilizados grandes prejuízos" com os saques.

Agencia Estado,

28 de janeiro de 2002 | 17h11

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