Morte de criança em tiroteio no Rio revolta moradores

Um menino de 10 anos e um policial militar morreram no início da tarde deste sábado num tiroteio entre policiais e traficantes no Morro do Borel, na Tijuca, na zona norte do Rio. A morte de Lorran de Sousa Santos, que brincava na porta da casa do avô, revoltou os moradores da favela. Eles contaram que seis homens armados chegaram em um taxi de vidros escuros por volta de 12h30. Segundo as testemunhas, eram policiais militares à paisana que receberam apoio, em seguida, de agentes fardados do Batalhão da Tijuca (6.º BPM). Eles trocaram tiros com traficantes locais, que balearam o cabo Eraldo Ferreira de Andrade Júnior, de 33 anos. Com perfurações de fuzil no tórax e no braço esquerdo, o PM morreu ao chegar ao Hospital do Andaraí. O menino também foi levado para o hospital, baleado no rosto, mas já chegou morto à unidade.Lorran estava próximo a uma banca de comércio ambulante que fica na porta da casa do avô, na localidade conhecida como Largo do Horácio, quando começou o tiroteio. Além do menino, duas jovens que estavam próximo dele foram feridas de raspão. "Eu estava na frente, uma moça atrás de mim e o menino atrás de nós. Só vi quando o táxi chegou e saíram seis homens armados atirando", contou uma delas, ferida de raspão no braço direito, que pediu para não ser identificada. Ela disse que os três ficaram entre os policiais e um traficante armado e teve a impressão de que o policial tentava atingir o traficante. "Só vi quando o tiro passou entre nós e raspou no meu braço. Acho que foi a mesma bala que matou o menino. Foi muito tiro, pensei que não sobreviveria", contou a jovem de 26 anos, que recolhia roupas para doação naquele momento. O relações-públicas da PM, tenente-coronel Aristeu Leonardo Tavares, admitiu, em nota, que a operação policial foi planejada pelo 6º BPM. Na versão da PM, o menino estava atrás dos policiais militares. "Tendo em vista tal fato, há fortes indícios deste ter sido atingido pelos marginais que atacaram covardemente os integrantes da instituição", diz Tavares na nota. Ele informou ainda que as circunstâncias do tiroteio serão apuradas. O Hospital do Andaraí não soube informar se o PM morto estava fardado. Um segurança da unidade contou que ele chegou apenas de cuecas.Parentes do menino sustentam que o policial que atirou nele estava de bermudas e chinelo de dedo e confessou ter atirado em Lorran. Ele teria manifestado arrependimento ao ver a criança ferida, mas, diante do protesto dos parentes, teria entrado na casa da família, dado um tiro no chão e gritado: "Matei mesmo, porque ele é bandido e porque mataram o meu amigo". A família não se conforma."Era uma criança, não um bandido! Deram um tiro na cara de uma criança de 10 anos de idade, isso é um absurdo!", queixou-se Creuza de Sousa, tia de Lorran. A mãe, Ana Lúcia de Sousa, estava no supermercado na hora do tiroteio. Lorran vivia no Borel com ela, que é separada, e um irmão de 8 anos.Revoltados, moradores do Borel fizeram um protesto na Rua São Miguel, que corta a favela e liga a Tijuca ao Alto da Boa Vista. Eles montaram uma barricada para interromper o trânsito e orientavam motoristas a voltar. Alguns improvisaram cartazes chamando a PM de assassina. Do outro lado, na Rua Conde de Bonfim, policiais do 6º BPM fora mobilizados para evitar protestos. Uma passeata foi iniciada até a delegacia do bairro, mas foi dispersa.Maciel Pinheiro, vice-presidente da Associação de Moradores do Borel, disse que os policiais do batalhão local fazem incursões violentas com freqüência e sem qualquer critério. "Para eles todo mundo é bandido. Eles não têm respeito com os moradores. Tenho certeza de que não agiriam assim num condomínio", queixou-se. Segundo o líder comunitário, a incursão policial aconteceu num horário de grande movimentação, quando muitas pessoas estavam descendo para levar animais domésticos para a vacinação contra a raiva. O coronel Álvaro Garcia, comandante do 6º BPM, não foi encontrado.

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