Morte entre crianças negras é o dobro das brancas no País

No dia em que vários Estados no País comemoram o Dia da Consciência Negra e que entidades no mundo lembram o aniversário da convenção sobre os direitos da criança, adotada por 192 países, um estudo do Fundo para a Infância e Adolescência da Unicef alerta que para cada criança branca vítima da violência urbana no Brasil, duas crianças negras são mortas. A estatística faz parte de um levantamento feito para chamar a atenção sobre a fragilidade das crianças negras do País.Com a utilização de dados do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD), a Unicef traçou um desenho sombrio de como o racismo afeta futuras gerações de brasileiros e compromete "setores-chave do desenvolvimento", de acordo com a oficial de projetos da agência, Helena Oliveira Silva.Segundo o PNUD, a taxa de homicídios registrada entre negros foi o dobro da registrada entre brancos no ano passado. Em 2000, de acordo com o Datasus, em média 14 adolescentes entre 15 e 18 anos morreram por dia no Brasil - destes, 70% eram negros.Embora a situação da criança tenha melhorado no Brasil nos últimos anos - com relação aos índices de escolaridade e queda nas taxas de mortalidade - a análise por raça mostra que as mudanças não atingiram todas as crianças.Na faixa dos 7 a 14 anos, são negras 500 mil das 800 mil crianças que estão fora da escola. A proporção de crianças e adolescentes negros fora da escola é 30% maior que a média nacional, e o dobro, se consideradas apenas as crianças brancas. ?As crianças negras são as que têm sofrido as conseqüências mais perversas do modelo de desenvolvimento brasileiro?, afirmou Helena.Ela destacou a gravidade dos problemas também entre as crianças indígenas. No País, 49,7% das crianças indígenas não têm acesso à água, contra 24,9% das negras e 10% das brancas. Ações afirmativas A porta-voz da Unicef disse acreditar que o País conseguirá cumprir os objetivos relativos à infância entre as chamadas Metas do Milênio. ?Mas quem é que ficará para trás nestas metas??, questionou Helena. Até 2015, o Brasil e os outros 191 países da ONU se comprometeram a garantir o ensino básico a todas as crianças, e reduzir, em dois terços com base em 1990, a mortalidade de crianças de até cinco anos de idade.O problema é que, no Brasil, as crianças negras ainda têm uma defasagem de dois anos em relação às brancas para atingirem o mesmo grau de escolaridade.Além disso, a falta de acesso ao exame pré-natal - realidade de cerca de 100 mil gestantes no País - é três vezes maior entre as mães negras que entre as brancas.Para a Unicef, o Brasil precisa de programas de desenvolvimento infantil em comunidades quilombolas e em bairros pobres das grandes cidades, onde se concentram as crianças negras. Helena Silva defendeu ainda ações afirmativas para aumentar o número de negros em posições importantes na sociedade - como o Congresso.?A ação afirmativa não é contrária à universalização, e sim o contrário. A democracia racial no Brasil é um mito que existe com base na anulação de uma raça e de uma etnia?, ela afirmou. ?Corremos o risco de perpetuar um cenário árduo de extrema desigualdade, que naturaliza determinadas posturas, como a de que ser negro significa ser pobre, e que brancos têm mais chances na vida."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.