Mortes em Bangu 1 não devem ampliar poderes de Beira-Mar

A chacina promovida por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, no presídio de Bangu 1 não deve ampliar seu controle sobre a venda de drogas no Rio. A análise é da chefe do Setor de Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, Marina Maggessi, que há 13 anos investiga o tráfico em território fluminense.Ao contrário de outros traficantes, que dominam territórios e são "donos" de bocas-de-fumo, Beira-Mar atua como atacadista. Ele fornece drogas para todos os criminosos ligados ao Comando Vermelho. São 500 quilos de cocaína por mês, segundo estimativa da policial. O traficante ainda mantém o controle sobre a Favela Beira-Mar, em Caxias, na Baixada Fluminense, local em que nasceu e começou a trabalhar como "vapor" (vendedor de drogas). "A Beira-Mar é fichinha para ele. O negócio é a venda no atacado", afirmou.Marina não acredita que Beira-Mar vá tomar os pontos de venda de drogas de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, uma de suas vítimas em Bangu 1. Desde que o traficante havia sido preso, o irmão dele, Ednildo Pinto de Medeiros, o Nil, tomava conta das "bocas". Nil tem mandado de prisão preventiva decretado a pedido de policiais federais.Uê vendia quase a mesma quantidade de drogas que Beira-Mar, segundo a policial. Ele comandava os morros do Juramento, Adeus, o Complexo do Caju, e as favelas Parque Alegria e Pára-Pedro, na zona norte. "É preciso esperar mais um pouco para fazer uma análise de como ficarão essas bocas. Ainda não sabemos qual será a reação do Linho", disse Marina.A policial se refere ao traficante e seqüestrador Paulo César Silva dos Santos, o Linho, que comanda a venda de drogas no Complexo da Maré. "Ele é o homem livre do Terceiro Comando. O mais poderoso em dinheiro e armamento", afirma. O TC estava aliado à facção Amigo dos Amigos, criada por Uê depois que ele traiu a confiança de seus comparsas do Comando Vermelho e matou um dos principais líderes do bando, o traficante Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, em 1994, e outros 11 criminosos.Marina diz que o Terceiro Comando não foi "importunado" durante o motim liderado por Beira-Mar em Bangu 1. Um dos líderes da facção, Marcelo Soares de Medeiros, o Marcelo PQD, chegou a ser retirado do presídio depois de negociação entre os criminosos que comandavam a rebelião e agentes do Batalhão de Operações Especiais, que intermediavam o conflito. Para a policial, isso pode ser indício de que ADA e TC não sejam mais aliados. A chefe de investigações também não acredita em vingança imediata contra Beira-Mar por conta das mortes. A ADA deve se reestruturar antes de reagir. "Quem podia vingar o Uê imediatamente também está morto", disse, referindo-se aos cunhados do traficante, Carlos Alberto da Costa, o Robertinho do Adeus, e Wanderley Soares, o Orelha, também mortos no conflito.

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