JOÃO CARLOS FRIGÉRIO
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Mortes migram das capitais para as zonas metropolitanas

Estudo do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz mostra que, sem as mesmas condições de manter os aparatos de segurança das vizinhas mais ricas, elas estão herdando os crimes e as mortes

Lisandra Paraguassu, O Estado de S. Paulo

13 Maio 2015 | 20h30

BRASÍLIA - No último final de semana, quatro pessoas foram assassinadas em Simões Filho, cidade de pouco mais de 100 mil habitantes na zona metropolitana de Salvador. Em Ananindeua (PA), próxima a Belém, uma jovem de 19 anos foi encontrada morta em casa e a polícia ainda investiga o assassinato de sete pessoas no mesmo dia, registrados no final de abril. As duas cidades, periferia das capitais, são os únicos municípios brasileiros em que as taxas de mortalidade por armas de fogo, acima de 100 por 100 mil habitantes, equivalem às de zonas de guerra. O Mapa da Violência 2015 - Mortes Matadas por Armas de Fogo, do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, mostra que as zonas metropolitanas das capitais, sem as mesmas condições de manter os aparatos de segurança das vizinhas mais ricas, estão herdando os crimes e as mortes.

Dentre as 20 cidades com maiores taxas de assassinatos por armas de fogo, 14 estão em zonas metropolitanas das capitais e uma é a própria capital, Maceió. Dessas, apenas duas não estão em Estados do Norte ou Nordeste - Serra, no Espírito Santo, que se mantém na lista desde 2007, ano do primeiro mapa por municípios, e Campina Grande do Sul, no Paraná. Entre as outras, há dois polos de crescimento, uma cidade de fronteira e duas cidades turísticas no litoral. 

De acordo com o autor do estudo, a violência homicida deixou os grandes centros, como Rio e São Paulo, e migrou para centros menores, onde a estrutura de segurança e social é menor. A falta de Estado se reflete no crescimento das mortes em cidades das periferias das capitais, em polos de desenvolvimento no interior dos Estados, no chamado Arco do Desmatamento Amazônico - onde as atividades ilegais chegam muito antes do Estado - e também em regiões que chama de turismo predatório, especialmente o litoral, onde a população pode triplicar em um final de semana, sem a correspondente estrutura de Estado para acompanhar. "Onde aparecem novos atrativos aparece a criminalidade, mas não aparece o Estado para enfrentá-la. Esses municípios enfrentam uma onda de crime organizado totalmente desaparelhados", explicou Waiselfisz ao Estado. "Em alguns casos mesmo os interesses econômicos locais coincidem com os interesses econômicos da violência. As estruturas não são criminosas, mas vivem delas. Tratam de ocultá-las porque se beneficiam delas."

Isso explica, por exemplo, porque apenas cinco capitais estão entre as cem com maiores taxas de assassinatos por armas de fogo. São elas Maceió (AL), João Pessoa (PB) e Fortaleza, capitais de Estados marcados pelas dificuldades econômicas, e Vitória (ES) e Recife (PE), que são historicamente regiões com altos índices de criminalidade.

Metodologia. O levantamento de dados, feito com base em dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, leva em conta a média de mortes ocasionadas por armas de fogo e da população dos municípios nos últimos três anos, para evitar distorções em cidades com população muito pequena. Com isso, pode-se ter certeza que a taxa de mortalidade apresentada ali não é resultado de um ano atípico, onde teriam ocorrido mais mortes do que o normal.

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