Mosteiro mais antigo tem monges mais novos

São Bento completou 410 anos com 35 dos 44 irmãos na faixa entre 20 e 32 anos de idade; clausura total e silêncio absoluto ficaram no passado

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

A instituição religiosa com vida ininterrupta mais antiga de São Paulo, o Mosteiro de São Bento, completou, na terça-feira, 410 anos. E com a geração de monges mais jovem da história da casa. Dos 44 beneditinos, 35 têm entre 20 e 32 anos. "Em 1993, quando cheguei, havia uma geração significativa de octogenários, que foi morrendo ao longo do tempo. Desse grupo só um está vivo, mas bem idoso, com 97 anos, e doente, com Alzheimer", diz o prior, d. João Evangelista Kovas, de 35 anos, segundo na hierarquia. O primeiro é o abade, d. Mathias Tolentino Braga, de 43 anos.Com o rejuvenescimento do corpo de religiosos, o mosteiro vem saindo de um obscurantismo secular para se adequar à modernidade, sem, no entanto, perder o foco na vida monástica e nos valores tradicionais. "A nova geração de monges é mais maleável que a antiga", diz o irmão Gregório de Oliveira Ferreira, de 24 anos, que em aproximadamente três semanas fará os votos perpétuos, conquistando assim, depois de cinco anos de estudo, o título de monge. Ele nasceu numa família humilde, em Queluz, no interior de São Paulo. Decidiu pela vida monástica depois de uma reportagem a que assistiu na TV sobre o mosteiro. "Quando entrei aqui, os noviços não podiam nem passar no andar do Colégio São Bento (localizado no prédio anexo). Hoje, muitos deles dão aula de catequese lá."Agora idas ao cinema, ao teatro e mesmo a seminários acontecem - sempre que o abade dá permissão. "Dificilmente digo não, mas tenho de saber, por exemplo, a que filme vão assistir ", diz ele. A vida no mosteiro é intensa, deixando pouco tempo e fôlego para diversão. Às 5 horas, tocam os sinos que despertam os monges. Às 8 horas, eles já meditaram, tomaram o café da manhã e celebraram a missa, quando então começam as atividades ordinárias, como limpeza das celas e dos corredores. Muitos também saem para fazer pagamentos em bancos ou resolver problemas burocráticos. "Nos dias de hoje, não há como viver totalmente enclausurado. Além de tudo, tocamos alguns negócios, como a padaria", diz o abade. "É uma questão de sobrevivência."Ao meio-dia, serve-se o almoço. Não é permitido conversar durante a refeição. Para que ninguém caia em tentação, um dos religiosos lê em voz alta algum livro de história, como 1808, sobre a chegada da família real ao Brasil. "O mais difícil é a hora do silêncio, reservada para meditação, oração e leitura", observa irmão Gregório. "Nunca conseguimos fazer aquele silêncio sepulcral, que os antigos monges colocavam em prática. Sempre alguém fala alguma coisa ou solta uma piadinha."

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