Motoboy acusa policiais de receber propina de máfia

Testemunha fez delação premiada; ele é acusado de tentar matar advogado com quem PM encontrou suposta lista de DPs beneficiados

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

16 de dezembro de 2008 | 00h00

Um novo depoimento deve reabrir as investigações sobre o caso do advogado Jamil Chokr, com quem policiais militares apreenderam uma suposta lista de propina paga a policiais civis de São Paulo pela máfia dos caça-níqueis. A testemunha é o motoboy Cleverson Rodrigo Camargo Ricardo, acusado de ter tentado matar o advogado durante um assalto, em maio de 2007, que terminou em acidente de trânsito. Ao socorrer Chokr, ferido ao bater seu carro blindado, a PM descobriu a contabilidade e envelopes com dinheiro supostamente para serem entregues a policiais.O motoboy foi ouvido no dia 17 de setembro pelos promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo. Em troca da delação premiada, Ricardo contou aos promotores o que supostamente sabia sobre o funcionamento da máfia dos caça-níqueis e o pagamento de propina a policiais. Segundo ele, Chokr é conhecido por recolher dinheiro dos donos de caça-níqueis para pagar propina a policiais. A defesa de Chokr não foi localizada ontem. Em entrevista concedida ao Estado em junho de 2007, o advogado afirmou nunca ter pago propina a policiais.Já o motoboy afirmou que conhecia Chokr e disse que viu o advogado com R$ 60 mil que seriam usados para distribuir a policiais corruptos. Disse que o dinheiro era entregue aos policiais em um shopping na zona norte, em postos de gasolina e em uma empresa de blindagem. O motoboy disse que recebia cerca de R$ 1,5 mil da máfia dos caça-níqueis para fazer o serviço de entrega do dinheiro e ganhava ainda "caixinha dos policiais civis" pela entrega do dinheiro. Ricardo contou que a coleta do dinheiro com os donos de caça-níqueis ocorria entre os dias 20 e 30 de cada mês e a propina era paga aos policiais a partir do dia 5.O motoboy afirmou, no entanto, que "às vezes, os policiais civis ligavam antes", pois "eram impacientes". Ricardo negou que tenha tentado assaltar o advogado. Ele disse que havia se desentendido com Chokr naquele dia por causa do recolhimento do dinheiro e acusou Chokr de derrubá-lo de sua moto, provocando o acidente que levou à descoberta da suposta lista e do mapa da propina.No fim de seu depoimento, o motoboy apontou nove investigadores como policiais para quem ele entregaria propina dos caça-níqueis. Segundo ele, os corruptos trabalhavam em delegacias da zona norte, da região central e da zona oeste da cidade. No suposto mapa da propina apreendido com o advogado havia menção de pagamentos regulares para oito delegacias seccionais e 84 dos 93 distritos policiais da capital. O Gaeco recebeu um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que mostra que Chokr ganhou 29 vezes nas loterias federais, totalizando R$ 155,4 mil.A Corregedoria da Polícia Civil havia investigado durante mais de um ano. Foi pedida a quebra do sigilo telefônico de quase duas dezenas de celulares de investigadores citados nas anotações de Chokr, mas nada foi descoberto. Em seu relatório, a delegada Cíntia Maria Quaggio informou que ouviu 300 pessoas, mas não encontrou indícios que pudessem ligá-las aos papéis apreendidos.

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