Motor de avião da FAB foi desligado para evitar queda brusca

Piloto contou que pouso foi forçado após perda de potência e com o aumento da temperatura do motor

Liege Albuquerque, de O Estado de S. Paulo,

02 Novembro 2009 | 20h46

Para evitar uma queda brusca na água, o motor do cessna C-98 Caravan que caiu na quinta-feira matando dois de seus onze ocupantes foi desligado pelo piloto 1º tenente Carlos Wagner Ottone Veiga depois da desaceleração progressiva do motor, ocorrida 45 minutos depois da decolagem de Cruzeiro do Sul, no Acre. Embora o piloto tenha desacelerado e nos últimos minutos desligado o motor, ele estima que o avião tenha batido na água a 160 km por hora.

"Houve uma perda de potência e a temperatura do motor subiu muito rápido, não tinha como manter a altitude de 9 mil pés. Por isso depois de decidido pela tripulação que iríamos fazer um pouso forçado num igarapé com a potência diminuindo cada vez mais, o motor foi desligado minutos antes do pouso para o avião descer planando com o mínimo de impacto na água", explicou o piloto.

Em entrevista na tarde desta segunda-feira, 2, a tripulação do avião frisou que a inexistência de pânico entre a tripulação e principalmente entre os passageiros foi a maior razão para que os onze chegassem com vida até o pouso forçado. "Lamentamos as duas perdas e o que ouvimos de relato dos próprios passageiros é que o funcionário da Funasa que faleceu (João de Abreu Filho, de 33 anos) foi o único a ter desobedecido a instrução de sair pela porta traseira da aeronave", destacou Veiga.

De acordo com o co-piloto, o 2º tenente José Ananias da Silva Pereira, quando ele virou para os passageiros e disse: "Quem acredita em Deus reze para Ele ajudar a gente", todos começaram a rezar e a ouvi-lo com atenção. "Expliquei que estávamos fazendo um pouso de emergência, que precisavam manter a calma e, ao descer, todos deveriam descer pelas portas traseiras", contou.

Para o tenente, o treinamento na Aeronáutica foi essencial para a tentativa de manter o sangue frio. "Também, para todos nós, pensar nas nossas famílias durante tudo o que aconteceu, a vontade de vê-los de novo foi essencial para dar força para manter a calma", disse. "Durante o pernoite na selva, lembro que dona Maria da Graça (Rodrigues Nobre, funcionária da Funasa sobrevivente) disse 'somos da selva, vamos sobreviver por quanto tempo for preciso até nos encontrarem'. E foi o que fizemos, e foi pensar que iria ver meus pais de novo que me aqueceu naquela noite fria".

Segundo o mecânico da aeronave, 1º sargento Edmar Simões Lourenço, o suboficial Marcelo dos Santos Dias, o outro mecânico da aeronave que foi sepultado hoje (2) no Rio, ficou na porta traseira ajudando todos os passageiros a sair. "Quando saímos da aeronave, fizemos uma rápida contagem, e estava faltando o sr. João, mas o suboficial ainda estava conosco. Como a correnteza era forte, quem sabia nadar começou a ajudar as pessoas que não sabiam e só ao chegarmos na margem é que percebemos que o suboficial Dias não tinha conseguido chegar", relatou o piloto.

Segundo o major brigadeiro Jorge de Souza e Mello, hoje pela manhã um helicóptero H-60 da Aeronáutica levou para a clareira aberta no local do acidente 13 militares e equipamentos do Corpo de Bombeiros do Acre. A equipe ficará no local durante toda a noite e fará a montagem dos equipamentos para resgatar o avião, que está a cerca de 6 metros de profundidade do igarapé Jacupará. Amanhã (03), um avião C-105 Amazonas da FAB deverá sair de Manaus com mais 17 militares para Cruzeiro do Sul, de onde os militares seguirão de helicóptero para a clareira para dar início aos trabalhos de recuperação e desmontagem do C-98 Caravan. Além do C-105 Amazonas, três helicópteros H-60 Blackhawk serão mobilizados para a missão. "Com o resgate do Caravan poderemos coletar material para investigar o acidente, que ficará a cargo do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

 

Última vítima do avião da FAB é enterrada no Rio

 

Familiares, colegas e militares acompanharam o cortejo. Foto: Marcos de Paula/Agência Estado 

 

O corpo do suboficial Marcelo dos Santos Dias, foi enterrado na tarde desta segunda-feira, 2, no cemitério Jardim Saudade, em Mesquita, na Baixada Fluminense.

 

Cerca de 100 pessoas acompanharam o sepultamento, entre militares, colegas e familiares. Em pronunciamento, a irmã de Dias, Rosilene Cristina dos Santos Dias Borges, emocionou os presentes falando do suboficial. "Tenho certeza de que ele salvou dez vidas - nove adultos e um bebê na barriga - com muito amor. Ele amava o que fazia e morreu fazendo o que mais gostava", disse ela, acrescentando que a FAB vem dando todo o apoio que a família necessita.

 

O avião Cessna C-98 Caravan desapareceu na manhã da última quinta-feira, quando fazia o trajeto entre as cidades de Cruzeiro do Sul (AC) e Tabatinga (AM). O monomotor fez um pouso forçado no rio Ituí, no Amazonas, e foi encontrado por índios na sexta-feira dez milhas fora de sua rota. Onze pessoas estavam a bordo. Nove foram resgatadas com vida e já voltaram para casa.

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