Motorista diz que deu R$ 256 mil de propina a Agnelo

Depoimento leva MP a investigar governador do DF; relato liga o ex-ministro a suposto esquema de desvio de verbas no Esporte

FELIPE RECONDO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2011 | 03h07

Um relato detalhado da entrega de uma mochila com R$ 256 mil de propina a Agnelo Queiroz, em agosto de 2007, e um bilhete encontrado na casa do policial militar João Dias Ferreira, dono da Federação Brasiliense de Kung Fu (Febrak), ligam o esquema de desvio de dinheiro do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, ao atual governador do Distrito Federal e ex-ministro do Esporte.

Por conta desses indícios, Agnelo será investigado pelo Ministério Público Federal e poderá ter o sigilo bancário e telefônico quebrado. Na terça-feira, a Justiça Federal enviou ao Superior Tribunal de Justiça o inquérito aberto para a apuração das denúncias.

Nos sete volumes do inquérito, está o depoimento de Geraldo Nascimento de Andrade, motorista de uma das empresas fornecedoras de notas falsas para encobrir o desvio de recursos do Segundo Tempo que está sob proteção policial. Ao delegado Giancarlos Zuliani, da Polícia Civil do DF, Nascimento contou ter sacado, nos dias 7 e 8 de agosto de 2007, aproximadamente R$ 330 mil em uma agência do Banco de Brasília (BRB).

Disse que pôs R$ 256 mil numa mochila e participou pessoalmente da operação de entrega do dinheiro, na cidade-satélite de Sobradinho, a Agnelo. Relatou ter seguido de carro com Eduardo Pereira Tomaz, assessor de João Dias nos projetos do Segundo Tempo, para o estacionamento de uma concessionária de motos.

Nascimento contou ter chegado ao local marcado às 20h30 do dia 8 de agosto de 2007. Pouco depois, um Honda Civic preto estacionou ao lado do carro em que estava. Eduardo, então, desceu do veículo. O passageiro do Honda perguntou-lhe: "Quanto ele mandou para mim?" Eduardo respondeu: "Vê com ele depois". Eduardo pediu então a Nascimento que passasse a mochila, que logo foi entregue para o passageiro do Honda Civic.

Ao voltar para o carro, Eduardo perguntou a Nascimento: "Você sabe quem é esse cara aí?", para em seguida ele mesmo responder: "É o Agnelo". Nesse momento, contou Nascimento, olhou para o lado e confirmou que era Agnelo. Disse que isso foi possível porque o local "possuía boa iluminação".

Gorjeta. Ainda de acordo com o depoimento, prestado à Polícia Civil em 3 de abril de 2010, o ex-ministro teria despejado o dinheiro no chão do carro, conferido e separado R$ 1 mil que foram dados a Eduardo como gorjeta.

Seis volumes do inquérito serão mantidos sob sigilo durante toda a investigação por conterem informações obtidas com quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dos investigados. Em um deles, há ligações de Ana Paula Oliveira, mulher de João Dias, para Agnelo. Segundo os investigadores, ela buscava ajuda para garantir a defesa do marido nos processos que respondia por desvio de recursos públicos.

Em nota, a Secretaria de Comunicação do governo do DF afirmou que a existência da investigação não é suficiente para "firmar premissa" de que Agnelo "praticou ato reprovável legal e eticamente". "Há manifesta impropriedade na tentativa de formar juízo de valor aligeirado sobre a idoneidade pessoal ou legal de Agnelo Queiroz, com base em informações incompletas e descontextualizadas, principalmente porque a Justiça, único Poder constitucional para exercer a dicção de culpar ou inculpar os cidadãos, em momento algum o fez."

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