Motorista que atropelou e matou ciclista é liberado e vai responder em liberdade

Motorista que atropelou e matou ciclista é liberado e vai responder em liberdade

A vítima, de 46 anos, voltava do trabalho em uma rede de hotéis no bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 17h22
Atualizado 03 Setembro 2017 | 20h43

SÃO PAULO - O caminhoneiro Mario Prestes Neto, de 61 anos, que atropelou e arrastou um ciclista em Osasco, na Grande São Paulo, semana passada, se entregou neste domingo, 3, no 91.° Distrito Policial  (Ceagesp), na zona oeste da capital paulista. Investigado por homicídio doloso e fuga do local do acidente, ele saiu pela porta da frente da delegacia por volta das 16h30, após o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negar o pedido de prisão temporária, segundo informou a Polícia Civil.

Policiais do 91.º DP afirmaram que o juiz negou o pedido de prisão por entender que o suspeito pode responder ao processo em liberdade - uma vez que tem idade avançada, endereço fixo, se apresentou na delegacia e não teria antecedentes criminais. Segundo o próprio advogado de defesa, Cícero Oliveira dos Santos, entretanto, Neto teve uma passagem por embriaguez ao volante em 1984. 

Motorista profissional de caminhão e desempregado há três meses, ele se entregou quatro dias após o crime e não foi alvo de flagrante. O advogado disse que o suspeito estava em estado de choque, escondido em Presidente Prudente, no interior. Também por isso, negou que só tenha apresentado o caminhoneiro neste domingo para livrar o flagrante. “Quando eu o encontrei, ele estava querendo cometer suicídio, transtornado com a morte.”

O atropelamento que matou o pintor Gilmar Barbosa da Mata, de 45 anos, enquanto pedalava na Avenida Nações Unidas, aconteceu na última quarta-feira, 30, por volta das 17h45. Na versão do suspeito, o ciclista saiu de trás de uma mureta e entrou de vez na frente do carro. “Podia acontecer comigo, com você”, disse o advogado.

A Polícia Civil investiga se a colisão aconteceu na pista ou sobre uma faixa zebrada. Também aguarda laudo pericial para confirmar se houve excesso de velocidade, embora o motorista afirme que estava dentro do limite permitido da via. Os investigadores ainda não conseguiram imagens de câmeras no local.

Com outras testemunhas para ser ouvidas, a Polícia Civil prevê relatar o inquérito em uma semana e deve indiciar Neto por homicídio doloso, quando há intenção de matar. O advogado do suspeito, no entanto, contesta a natureza criminal, mas admite que houve omissão de socorro, que tem pena menor.

“Como quis matar? Ele não conhecia a vítima, como vou querer matar uma pessoa que eu não conheço?”, questionou Santos, na delegacia. “Ficou claro que foi uma omissão de socorro, artigo 304, parágrafo único (do Código de Trânsito Brasileiro), que dá detenção de 6 meses a 2 anos (na verdade, é de 6 meses a 1 ano).”

Parte da estratégia de defesa - que tenta demonstrar que houve um acidente, e não um assassinato - foi dizer aos policiais que o ciclista morreu na hora. “A pancada foi muito forte, entortou o capô do carro e o parabrisa afundou”, afirmou Santos.

Um laudo do Instituto Médico Legal deve constatar se o ciclista morreu imediatamente ou só depois de ter sido arrastado por cerca de 2 quilômetros. Para investigadores, a segunda hipóstese iria caracterizar o homicídio doloso.

Para explificar o fato de Neto ter continuado dirigindo, mesmo com a vítima presa no capô do veículo, o advogado alegou que o suspeito tentou “equilibrar” o corpo e que também temeu ser linchado. Outros motoristas teriam feito “buzinaço” e gritado “assassino”.  “Ele ficou com medo de brecar, ele cair e o carro passar por cima”, disse Santos. “Imagina um copo d’água em um objeto móvel. Eu quero levar essa água sem transbordar: foi isso que, no inconsciente, ele fez.” 

Abraço. Sob forte assédio da imprensa, Neto saiu acompanhado do advogado e não quis falar. Do lado de fora do 91.° DP, abraçou a filha responsável por registrar um boletim de ocorrência em que denunciou o próprio pai como autor do crime. "Desde o começo ele entendeu. Foi ele que ensinou para ela a ser íntegra. Falar a verdade", disse Santos.

Na semana passada, o assistente de manutenção Lusimar Rodrigues Barbosa Júnior, de 23 anos, que acompanhava a vítima, afirmou que os dois voltavam do trabalho em uma rede de hotéis, no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, no momento do atropelamento.

Segundo a testemunha, eles atravessavam a via quando um Renault Clio atingiu o pintor, que estava um pouco para trás empurrando a bicicleta. Com o impacto, Mata teria sido arremessado e caído no teto do carro, onde se segurou até as proximidades do Complexo Viário Heróis de 1932, conhecido como Cebolão.

Natural de Boquira, na Bahia, a vítima morava em São Paulo há cerca de 18 anos e faria aniversário de 46 anos na sexta-feira, 1. O incidente ocorreu no primeiro dia em que foi trabalhar de bicicleta.

Segundo o irmão do ciclista, Nilton Barbosa da Mata, de 42 anos, ele havia se casado 20 dias antes e era pai de dois jovens, de 14 e seis anos. “Foi uma tragédia.”

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