Motoristas culpam declive por acidentes em SC

Mas quem passa pela BR-282 acredita que caminhoneiro poderia ter evitado tragédia

Darci Debona, O Estadao de S.Paulo

13 de outubro de 2007 | 00h00

Um trecho em declive de 2,7 quilômetros de São Miguel D?Oeste até o km 630 da BR-282 contribuiu para os dois acidentes que, na terça-feira, mataram 27 pessoas e feriram outras 90, em Descanso, no oeste catarinense. Essa é a avaliação de motoristas que passaram ontem pelo local. Para piorar, há uma curva a 50 metros de onde ocorreram as colisões. "Quem desce com o caminhão carregado não tem quem segure", afirmou o caminhoneiro Cláudio Dias.Outro motorista, Luciano José dos Santos, que tem caminhão há 20 anos e passa pelo local duas vezes por semana - levando arroz e açúcar entre Rio Grande do Sul e São Paulo - acredita em falha mecânica. "A TV mostrou que as mangueiras do freio estava inutilizadas."Santos observou que a descida da serra provoca um superaquecimento dos freios. Ele dirige um Volvo que desce a serra numa média entre 60 e 80 quilômetros por hora e relata que, em condições normais, necessitaria de 100 metros para conseguir frear. Como a curva fica a 50 metros do local do acidente, ele considera que o motorista da carreta carregada de açúcar, Rosinei Ferrari, ficou sem freios e "deu de cara" com o primeiro acidente, onde um caminhão de soja bateu num ônibus.A intenção de processar Ferrari por crime intencional (doloso) mereceu críticas de Santos. "Uma pessoa em sã consciência jamais faria isso." Ele considera que houve uma sucessão de erros, que incluem a inexperiência do caminhoneiro, que poderia jogar o veículo no barranco antes de ganhar velocidade. Já no primeiro choque, ele considera que o motorista de Frederico Westphalen, Marco Aurélio Mattes, estava descendo a serra mais rápido do que o caminhão da frente, de Porto Xavier, e tentou a ultrapassagem para não bater na traseira do primeiro caminhão, indo ao encontro do ônibus de São José do Cedro. Testemunhas do acidente afirmaram que o caminhão de Frederico chegou a bater na traseira da carreta de Porto Xavier, antes de colidir com o ônibus. Mas para o leiteiro Moacir Benetti, que no ano passado perdeu um irmão a 200 metros do km 630 da rodovia, não se pode jogar toda a responsabilidade do caso sobre a estrada. "As condições da pista estão ótimas. Há sinalização com faixa dupla, não permitindo a ultrapassagem. A sinalização é deficiente somente 600 metros antes, num trecho recapeado." A menos de dois quilômetros do local também não há desníveis ou problemas de acostamento, como em outros trechos entre São Miguel D?Oeste e Maravilha, onde o acostamento foi até interditado. Outro motorista, João Bender, também pondera que não há justificativas: houve imprudência nos dois acidentes. "A falha foi 99% humana. Se houve problema nos freios, há a questão da manutenção (de responsabilidade da empresa e do caminhoneiro)", ressaltou o policial rodoviário federal Antonio Gilmar Freitas.

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