Luke Johnson/The New York Times
Luke Johnson/The New York Times

Motoristas da Uber protestam por melhores condições nos EUA

Profissionais se sentem pressionados e desumanizados por uma estrutura que promete independência, mas os deixa à mercê

Noam Scheiber, The New York Times

18 de fevereiro de 2016 | 09h00

DALLAS - Em setembro do ano passado, os motoristas do UberBlack da cidade de Dallas, que trabalham com o serviço de luxo da empresa, receberam um e-mail informando que eles também deveriam pegar passageiros no UberX, a opção de baixo custo.

No dia seguinte, quando a política deveria entrar em ação, inúmeros motoristas fizeram uma carreata até o escritório do Uber no centro de Dallas e ficaram lá parados até que os funcionários da empresa se encontrassem com eles. Muitos tinham feito empréstimos para comprar carros de luxo que custavam mais de US$ 35 mil e temiam que o valor baixo pago por quilômetro pelos passageiros do UberX não seria suficiente nem para cobrir os gastos com gasolina e a depreciação do veículo, sem falar nas parcelas do carro.

O conflito se estendeu por mais três dias tensos, até que o Uber permitiu que eles não aceitassem a política. "Eles acharam que iríamos simplesmente aceitar e ir embora", afirmou Kirubel Kebede, um dos líderes do grupo. "Mas deixamos claro que se trata do nosso sustento."

Com o rápido crescimento da indústria virtual dos "trampos", muitos trabalhadores se sentem pressionados e mais desumanizados por uma estrutura comercial que promete independência, mas frequentemente os deixa à mercê de empresas cada vez mais poderosas. Por isso, alguns profissionais estão começando a se organizar em busca de um tratamento mais justo por parte das plataformas que tornam seu trabalho possível.

"Começamos a perceber que não somos colaboradores independentes. Somos funcionários", afirmou Berhane Alemayoh, um dos motoristas do UberBlack em Dallas. "Eles determinam o tipo de carro que devemos dirigir, nos mandam embora se um cliente nos acusar de manter o carro sujo, e agora começam a nos cercar por outros lados. Aos poucos não conseguiremos mais respirar."

A medida mais contundente foi a criação de um sindicato de motoristas que trabalham para aplicativos de carona em Seattle, que recentemente foi aprovado pela Câmara dos Vereadores da cidade.

Embora muitas campanhas realizadas por esses trabalhadores alienados prefira deixar de lado as estruturas mais tradicionais de organização trabalhista, elas ajudam a mostrar quais são os interesses coletivos desses trabalhadores.

"Há alguma identidade profissional e consciência coletiva, apesar de muita gente insistir que essas plataformas não passam de 'mercados abertos' ou 'shoppings' digitais de trabalho", afirmou Mary L. Gray, pesquisadora da Microsoft Research e professora da Escola de Mídia da Universidade de Indiana que estuda esse novo tipo de trabalho informal.

As iniciativas vão muito além dos motoristas do Uber e de sua principal concorrente, o Lyft. Um grupo de entregadores que trabalha com a plataforma Postmates está criando uma campanha para a inclusão de um botão para encerrar a jornada após a última entrega, pois temem que o fato de negarem os pedidos depois de determinado horário poderia afetar a distribuição das entregas no futuro. (Um funcionário da Postmates afirmou que negar os pedidos não afeta a distribuição de trabalho, mas que ainda assim a empresa vê a ideia com bons olhos).

A Aliança Nacional dos Trabalhadores Domésticos, que organiza babás e empregadas domésticas, produziu recentemente um Código de Boas Práticas no Trabalho e exigiu que os aplicativos do setor adotassem essas diretrizes.

"Os trabalhadores podem ser enviados a casas onde não se sentem seguros, mas ficam com medo de sair dessa situação, já que isso pode afetar sua nota no aplicativo", afirmou Palak Shah, funcionário da organização que está por trás dessa campanha, citando inúmeras questões abordadas pelo Código de Boas Práticas no Trabalho. Algumas empresas, como a Managed by Q, a LeadGenius e a CareLinx, adotaram as diretrizes.

Por outro lado, vendedores de produtos em mercados virtuais como o eBay e o Etsy raramente se veem como funcionários. Eles acreditam que são artesãos ou lojistas independentes.

"O Etsy é apenas o lugar onde a minha loja existe, onde eu pago o meu aluguel", afirmou Sandie Russo, vendedora de padrões de tricô e acessórios tricotados à mão há bastante tempo no site, além de antiga organizadora de um fórum virtual no qual os vendedores debatiam problemas comuns. "Não tenho dúvidas de que somos empreendedores, não funcionários assalariados".

Ao contrário dos vendedores do eBay ou do Etsy, os motoristas da Uber não podem definir os próprios preços. Eles também são forçados por um sistema constante de avaliação - mantenha uma média de 4,6 de 5 estrelas na avaliação dos clientes, ou corra o risco de ser desativado - para que se comportem de determinada maneira, como não fazer propaganda de outros serviços para os passageiros.

A experiência dos motoristas do UberBlack de Dallas é reveladora. Quando a Uber começou a operar em Dallas em 2012, muitos dos motoristas eram funcionários de frotas de carros independentes ou eram funcionários de empresas de transporte executivo que compraram ou financiaram um carro novo.

"Alguns tinham as próprias empresas e os negócios iam bem. Eles só usavam a Uber como complemento", afirmou Alemayoh.

Os motoristas formaram uma aliança tática com a empresa para ajudá-la a conseguir aprovação na cidade, a despeito da resistência dos taxistas locais. Alemayoh até testemunhou em favor da Uber na Câmara dos Vereadores de Houston, depois que a empresa pediu para que ele falasse em favor de seus esforços de expansão. "Eu disse que, para os motoristas, era justo usar a Uber. Falei a favor deles por livre e espontânea vontade."

Mas o relacionamento começou a piorar em 2014, quando a empresa decretou que os motoristas com carros fabricados antes de 2008 não poderiam mais participar do UberBlack.

"Nós mostramos que eles estavam afetando o sustento de muitas famílias", afirmou Kebede, líder de um grupo conhecido como Associação de Donos e Operadores de Transporte Executivo de Dallas Fort Worth, formado no ano anterior. A Uber estendeu por vários meses o período de tolerância, mas não reverteu a política.

Quando a Uber informou os motoristas sobre a exigência de fazer corridas no UberX em setembro, os motoristas já haviam percebido há bastante tempo que estavam à mercê dos desmandos da empresa. Por causa da popularidade da Uber, quase todas as suas fontes alternativas de trabalho haviam secado. E a Uber havia ganhado bastante força junto à Câmara dos Vereadores, o que dava mais liberdade para a empresa.

Portanto, foi um pouco surpreendente que a associação dos motoristas, que representa cerca de 500 de um total de 2 mil a 3 mil motoristas de carros de luxo ativos na região de Dallas, tenha conseguido forçar a Uber não apenas a voltar atrás com a nova regra do UberX, mas também a permitir o retorno de diversos motoristas que foram desligados por pressionar os colegas a participarem da carreata.

Alguns continuam desativados por razões que consideram arbitrárias e que, de acordo com a Uber, não têm relação com o protesto ("Os motoristas têm direito à liberdade de expressão e nós respeitamos isso", afirmou um representante da empresa). Mas, para que os motoristas de Dallas fossem tão bem sucedidos, uma vantagem fundamental foi o fato de terem se organizado pessoalmente, não apenas pela internet e as mídias sociais.

Desde o início do ano, motoristas em cidades como Nova York, San Francisco e Tampa também começaram a organizar manifestações regionais contra quedas no valor das tarifas. Recentemente, centenas de motoristas foram à sede da Uber no Queens para exigir o retorno das tarifas anteriores.

Na região de Tampa, na Flórida, os motoristas protestaram contra cortes que derrubaram a tarifa de US$ 0,95 para US$ 0,65 por milha rodada na região de Tampa no início do ano. Há alguns meses a tarifa chegava a US$ 1,20 por milha. Agora, o faturamento dos motoristas se aproxima perigosamente de um valor inferior ao do salário mínimo em viagens com 15 a 20 minutos de duração, se levarem em conta o tempo de espera, o custo da gasolina, além da depreciação e da manutenção do veículo.

Um representante da Uber afirmou: "Às vezes baixamos o valor do serviço para que mais pessoas utilizem a Uber na cidade. Como sempre dizemos, os cortes de preço têm que ser funcionais para os motoristas. Se não forem, vamos voltar atrás".

Tudo o que sabemos sobre:
UberSeattleNova YorkFlórida

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.