Motoristas de ônibus desrespeitam leis

Passageiros também reclamam da impaciência dos profissionais

Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

Quem anda de ônibus em São Paulo sabe que é preciso se segurar. São solavancos, curvas em alta velocidade, freadas bruscas, arrancadas inesperadas. Na quinta-feira, a reportagem fez 11 viagens acompanhadas por instrutores de transporte e constatou que mesmo os motoristas cuidadosos infringiram o Código de Trânsito ou os direitos dos passageiros. ''Só a gente sabe a tristeza que é'', disse a doméstica Eunice Marinho, de 51 anos, em um ponto na Avenida Paulista.No primeiro ônibus avaliado pela reportagem na zona sul, o motorista parecia exemplar: usava cinto de segurança, mantinha as duas mãos no volante e uma velocidade que não fazia os passageiros chacoalharem. A chegada de uma adolescente, com uns 15 anos, mudou o seu comportamento. Durante o percurso, os dois trocaram olhares e gargalharam. ''É nítido que ele está mais interessado na menina do que no trânsito'', disse o instrutor Abdias Melo Silva.Há também quem dispense o cinto de segurança e o coloque na frente da camisa sem prendê-lo, só para enganar. E o cinto? ''Tá aí atrás'', disse o motorista, de 54 anos, que fazia a linha Aclimação-Terminal Princesa Isabel. ''Às vezes, eu uso, mas incomoda.'' Mas seta tem de dar? ''Nem sempre precisa.''Segundo o instrutor Adilson Mimi, o que falta a esses motoristas não é habilidade, mas comprometimento com a educação de trânsito. ''E isso se agrava por causa da jornada excessiva, do stress dos congestionamentos e da cobrança para cumprir horários'', disse ele.A impaciência dos motoristas é perceptível. Na Radial Leste, por volta das 18 horas, um motorista que seguia com o ônibus lotado para o Itaim Paulista descontava no freio e no acelerador sua impaciência com o trânsito. Na fila de ônibus perto da Estação Vila Matilde, o motorista pisava no acelerador mesmo parado.Para o presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores, Jorge Isao Hosogi, as infrações são conseqüência das más condições de trabalho aliadas à falta de educação. ''Esse é um processo demorado e não há um investimento das empresas para mudar a situação'', disse. ''Punir é fácil, difícil é orientar.''Em nota, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano disse que considera ''as ocorrências relatadas pela reportagem fatos isolados'', que não podem ser generalizados a 35 mil profissionais. A SPTrans não se manifestou, mas informou que o usuário pode fazer reclamação.

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