Motoristas furam sinal a cada 100s

Na capital, infração foi a que mais cresceu em 2007, 60,7%; CET acredita que motivo é aumento na fiscalização

Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

02 de março de 2009 | 00h00

No ano passado, a cada um minuto e meio um motorista foi multado nas ruas de São Paulo por furar o sinal vermelho. O número de autuações desse tipo foi o que mais aumentou em relação às multas de 2007, passando de 191 mil para 307 mil - um acréscimo de 60%. Os dados não significam necessariamente que o paulistano esteja desrespeitando mais a sinalização, mas que ela ficou mais rigorosa. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) atribui a variação a duas medidas: o convênio com a Polícia Militar retomado no ano passado e a contratação de mais 265 marronzinhos, elevando o efetivo para 1.900 agentes. Segundo a CET, este é "o maior contingente em ação em toda a história".Além dos agentes de trânsito, a infração de sinal vermelho - uma a cada 100 segundos, em média - é fiscalizada também por aparelhos conhecidos como "caetanos". Dos 132 equipamentos instalados, 108 estão em operação. Os "caetanos" foram desenvolvidos pela CET há 13 anos e devem aos poucos ser substituídos por radares fixos, mais modernos e que, além de registrar excesso de velocidade, conseguem flagrar quem fura o sinal.Um desses aparelhos clicou o taxista Mário China, de 46 anos, há 20 na profissão. "Uma ambulância pediu passagem. Eu era o primeiro carro da fila e quando fui deixá-la passar vi o flash", lembra. China pretende recorrer para tentar amenizar os cerca de 50 pontos que acumulou na carteira de habilitação no ano passado. "Me considero um bom motorista. O problema é que quem multa não sabe o que está acontecendo e por que você cometeu a infração." Um colega de ponto que ouvia a conversa acrescentou que, em alguns casos, é o trânsito estressante de São Paulo que "obriga" o desrespeito. "Às vezes tem gente te amarrando. Você com pressa e o cara para no sinal amarelo. Se você está nervoso passa na frente dele com tudo." Marronzinhos, policiais militares e equipamentos eletrônicos flagraram 4,6 milhões de infrações de trânsito no ano passado - 12% a mais que em 2007. Avançar o sinal vermelho representa 7% do total. Lideram o ranking as autuações para quem desrespeita o rodízio, estaciona em local proibido, excede a velocidade e dirige falando ao celular. Ignorar o semáforo está em 5º lugar nessa lista, mas é a única dessas infrações que é considerada gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro. São sete pontos na carteira de habilitação e multa de R$ 197,54. Não é à toa que seja assim. ACIDENTES FATAISRelatório de acidentes da Companhia de Engenharia de Tráfego mostra que 33% dos acidentes fatais registrados na cidade em 2007 foram causados porque o motorista desrespeitou o farol vermelho. Entre os motociclistas, essa é a terceira causa de morte, atrás de transitar entre duas faixas e exceder a velocidade. "Temos aí uma infração como prenúncio de um acidente", disse o médico José Montal, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. "O problema é que as pessoas imaginam que não vai acontecer com elas e acabam se arriscando."Quando a multa chega e o motorista decide recorrer, as justificativas são geralmente muito parecidas. Tinha alguém no carro quase morrendo a caminho do hospital, estava fugindo de um assaltante, deu passagem a uma ambulância, o lugar não era seguro ou, jura, passou no amarelo. "Mas nenhuma dessas desculpas são válidas para se cometer uma infração de trânsito", afirmou o policial militar Julyver Araújo, que atuou durante quatro anos como conselheiro do Conselho Estadual de Trânsito - órgão que julga os recursos em segunda instância. "Se a pessoa admite que por algum motivo pessoal cometeu a infração ela tem de pagar um preço por esse comportamento." ATENÇÃO AO CELULARSe furar o sinal vermelho é perigoso, o que dizer de quem dirige e fala ao celular ao mesmo tempo? Puxe pela memória: você já esteve falando com alguém e, de repente, parece que a ligação caiu. Mas a voz do outro lado da linha volta em seguida para explicar a interrupção. "Era só um marronzinho." E o motorista segue dividindo a atenção entre o trânsito e a conversa ao celular. No ano passado, essa tática funcionou menos. Os agentes de trânsito flagraram 373 mil condutores que dirigiam falando ao telefone. Esse número é 47% maior que o registrado em 2007. E mesmo assim ainda está longe de refletir o quanto o paulistano comete essa infração. Uma estimativa do consultor de trânsito Horácio Figueira indica que, em 2008, para cada motorista flagrado por marronzinhos outro 1,1 mil motoristas passaram, falando ao celular, sem serem percebidos. Figueira faz o cálculo com base numa pesquisa realizada há dois anos nos cruzamentos da cidade para mapear as infrações que colocam em risco a segurança no trânsito. "A fiscalização da CET não é inteligente. O motorista sabe onde pode e onde não pode desrespeitar a lei." O administrador de empresas José Carlos de Carvalho, de 49 anos, jura que estava só olhando para o aparelho, que tinha acabado de tocar, quando foi multado. "Foi muito rápido, nem cheguei a falar, mas a multa chegou." A infração por dirigir falando ao celular é considerada média no Código de Trânsito Brasileiro mas os especialistas em segurança de tráfego afirmam que é tão perigo quanto dirigir embriagado. "A hierarquia da conversa faz com que o motorista abdique da atenção. Se ela não estiver voltada para o trânsito, as chances de acidente são enormes", disse José Montal. A explicação não convence o taxista Maurício Borges, de 47 anos. Ele já foi autuado duas vezes em menos de 15 dias por dirigir falando ao celular e ainda não vê problema em fazer as duas coisas simultaneamente. "Não tem como o celular sair da nossa vida. Atendo mesmo."

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