Motoristas tumultuam audiência sobre transporte em SP

Depois de muito tumulto, ofensas, apitaços, agressões e atos de vandalismo patrocinados por cerca de 3 mil motoristas e cobradores de ônibus na Assembléia Legislativa, o secretário municipal dos Transportes, Carlos Zarattini, realizou nesta quarta-feira, em exatos seis minutos, a audiência pública sobre o sistema de transporte coletivo que a Prefeitura pretende adotar em meados de 2003.Um dia antes, o secretário tinha levado 1h30 para fazer a mesma apresentação. Zarattini disse ter cumprido a "formalidade da audiência pública", apesar do tumulto. "A audiência foi feita, apresentada, realizada e encerrada e é válida porque sua base legal foi explicada. Tudo que era necessário foi feito", afirmou. "Agora vamos dar prosseguimento ao processo de licitação, com a publicação do edital."O prazo da administração para a publicação dos documentos é de, no mínimo, 15 dias úteis. Zarattini atribuiu as manifestações na Assembléia a funcionários de empresas que entraram em greve nesta quarta-feira. A polícia deteve pelo menos um motorista, que estava com uma barra de ferro e duas facas. Três homens identificados como perueiros tiveram de ser socorridos às pressas pela Polícia Militar após terem sido agredidos por motoristas e cobradores.A assessoria militar da Assembléia Legislativa informou que os manifestantes destruíram três caixas de votação (urnas eletrônica usadas pelos deputados) e danificaram outras 20 no plenário da Casa, local da audiência pública. O prejuízo deverá ser cobrado do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de São Paulo.Os motoristas alegam que, com a aprovação do novo sistema, a frota e a oferta de empregos no setor vão diminuir. Segundo o presidente do sindicato, Edivaldo Santiago da Silva, 70 ônibus levaram 3.200 manifestantes para a Assembléia. O grupo contava com três carros de som, faixas e folhetos com a frase "secretário trapalhão".Logo cedo, antes da chegada do secretário, alguns manifestantes já estavam bebendo cerveja diante da Assembléia. A reportagem presenciou três casos de pessoas agredidas pelos sindicalistas fora do prédio da Assembléia. Policiais militares tentaram deter um motorista, mas foram impedidos pelos manifestantes.Na entrada para a audiência, todos os motoristas e cobradores passaram por revista com detector de metais. A segurança da Casa encontrou duas facas e uma barra de ferro com o motorista de ônibus Paulo de Oliveira Torres, de 37 anos. Ele alegou que usa as facas para cortar laranja e cana-de-açúcar e que a barra de ferro serve para puxar o freio do ônibus.Detido, ele foi dispensado mais tarde. A segurança da Assembléia liberou a entrada na Casa de 234 motoristas e cobradores. No plenário, os manifestantes iniciaram um apitaço. Zarattini chegou à Assembléia às 10h44. Após uma reunião na qual foram discutidas formas de manter sua segurança, o secretário foi vaiado e ofendido. "Zarattini, vagabundo, você é perueiro", gritavam os manifestantes.O secretário não se importou com as ofensas e a audiência foi aberta, às 10h47, pelo presidente da São Paulo Transporte (SPTrans), Carlos Alberto Carmona. Os motoristas e cobradores continuaram apitando, gritando e jogando bolinhas de papel no secretário e em Carmona. Segundo a PM, um manifestante atirou um molho de chaves na direção do secretário. Apreensivos, Zarattini, Carmona e outros integrantes da mesa começaram a se retirar da audiência, encerrada às 10h53."O Zarattini é um mentiroso. A Prefeitura vai tirar 2.500 carros da rua e vai causar mais de 11.000 demissões", dizia Silva, enquanto pedia "tranqüilidade" aos manifestantes. Não adiantou. Revoltados, motoristas e cobradores tentaram partir para o confronto com a PM, para "resgatar" Torres.Depois começaram a destruir o plenário, arrancando as tampas das caixas de votação e as próprias caixas. Pelo menos uma tampa e uma caixa foram atiradas em direção ao lugar onde representantes da Prefeitura faziam a apresentação do novo sistema de transporte. O secretário estava em uma sala, onde concedeu uma entrevista, e os motoristas e cobradores deixaram a Assembléia.A prefeita Marta Suplicy (PT) classificou de "deplorável" o tumulto ocorrido nesta quarta-feira na Assembléia Legislativa durante a audiência pública sobre o novo sistema de transporte coletivo. "A audiência foi válida e a licitação se inicia amanhã", afirmou Marta, durante encontro com empresários no Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva, na Vila Buarque, região central.Segundo a São Paulo Transporte (SPTrans), pessoas ligadas ao Sindicato dos Motoristas e Cobradores agrediram três de seus funcionários durante a audiência. Atingido na cabeça por uma placa de metal, José Roberto Leite foi levado para o Hospital 9 de Julho. Cícero Alves Feitosa e Joaquim Pedro Santos levaram socos e pontapés. Foi registrado boletim de ocorrência no 36º Distrito Policial, na Vila Mariana.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.