JF Diorio / Estadao
JF Diorio / Estadao

Movimentação de talude acelera e população de Barão de Cocais vive expectativa de rompimento

Diante da possibilidade de queda de talude, prevista para acontecer até domingo, 26, população se prepara para o pior cenário. Único hospital da cidade tem aumento no número de atendimentos

Felipe Resk, enviado especial à Barão de Cocais, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2019 | 16h36
Atualizado 25 de maio de 2019 | 21h21

BARÃO DE COCAIS - Às vésperas de completar 38 anos, a empacotadora Creuza Camilo não vê motivos para comemorar. Moradora de Barão de Cocais (MG), ela faz aniversário neste domingo, 26 - mas a data coincidiu com o limite para o rompimento do talude, a parede de contenção, da mina de Gongo Soco. "Quero nem mexer com isso de aniversário, sabe? A cabeça da gente não tá boa", diz.

Desde que nasceu, Creuza vive em uma casinha de tijolos aparentes, ladeada por meia dúzia de bananeiras, no bairro de João Paulo, área considerada de risco. As paredes foram erguidas sobre o chão de terra batida, em um pedaço que fica bem na curva do Rio São João, cujo leito pode - se a barragem vier abaixo - arrastar a lama de rejeitos e inundar o local.

Lá, também moram o marido, um filho e a mãe, Maria Camilo, de 78 anos, marcada por feridas nos braços e nas pernas por causa da diabetes, segundo conta. "Todo mundo vai trabalhar, durante o dia eu fico sozinha até umas 10 horas da noite", diz a idosa, que participou do simulado de evacuação da Defesa Civil e passou mal. "Rezo todos os dias e peço a Deus que não aconteça nada."

"Minha maior preocupação é a minha mãe. Se a sirene tocar, todo mundo vai ter que sair correndo", afirma Creuza, que separou algumas roupas para o caso de emergência. Também pretende levar com ela os dois cãezinhos da casa, Psirico e Negão.

A família já viveu a experiência de deixar tudo para trás em fevereiro, quando o nível de alerta da represa subiu, mas depois voltaram para casa. "A agonia foi tão grande que esqueci de pegar o cachorro, só achei depois", conta Creuza.

O talude da mina Gongo Soco, que costumava escorregar cerca de 10 cm por ano, em média, tem avançado cada vez mais rápido. No início da semana, a estrutura movimentou 7 centímetros por dia. Na sexta-feira, subiu para até 16 centímetros. Já neste sábado, chegou à marca de 18 centímetros por dia nos pontos mais críticos, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM).

Embora as autoridades já comecem a dizer não ser possível estabelecer o dia exato, a ruptura do talude é dada como certa. A previsão era de que ocorreria até este domingo, 26, abrindo dois cenários possíveis.

Na melhor hipótese, a estrutura escorrega aos poucos e fica retida na cava da mina, sem causar grandes impactos para moradores de Barão de Cocais e da região. Na pior, a queda provoca um abalo sísmico que estoura a barragem de rejeitos, localizada a 1,5 quilômetro de distância. Esse risco é entre 10% e 15%, segundo auditoria contratada pela Vale.

Também morador de área de risco, o motorista Agnaldo Coelho, de 49 anos, aproveitou o "Dia D" para lavar seu micro-ônibus, em que transporta crianças da cidade para escola, como se fosse dia normal. "Eu estou tranquilo, não acho que, se romper, vai ser uma coisa exagerada", diz. "Da outra vez, guardei o carro em um lugar bem alto e não aconteceu nada. Deixei de ficar preocupado, dá tempo demais de fugir. Para você ver, durmo de roncar."

Segunda o plano de emergência, a lama chegaria à area urbana de Barão de Cocais, onde há sete rotas de fuga, após 1 hora e 12 minutos. Em 3 horas, afetaria a cidade vizinha de Santa Bárbara. Em 8 horas, atingiria São Gonçalo do Rio Abaixo, totalizando cerca de 10 mil pessoas.

Cidade foi tomada por apreensão

Nesta semana, Barão de Cocais foi tomada por apreensão. O comércio parou e serviços mudaram de endereço. Por causa do risco, parte dos moradores foi realocada pela Vale para hotéis ou casas alugadas. Outros foram morar com parentes em áreas mais distantes.

O número de atendimentos no Hospital Municipal Waldemar das Dores, o único na cidade, também subiu. Três pessoas sofreram enfarto e dezenas procuraram atendimento por pressão alta ou crise de ansiedade.

"Até o número de partos aumentou. A gente fazia uma cesárea por dia e só hoje (sábado) foram quatro", diz o diretor clínico da unidade, Azenclever Eduardo Rogério, de 45 anos. "Ninguém quer arriscar ter filho na hora do sufoco."

Em uma planilha no computador, Rogério mostra que, neste mês, foram feitos 653 atendimentos no pronto-socorro. "Em condições normais, a gente faz 60% menos", conta.

O diretor afirma que saiu ligando para outros profissionais que moram na cidade para que ajudem se a barragem cair. "Eles se prontificam a vir para cá, trabalhar como voluntário, imediatamente."

O hospital fica em uma região alta e fora de risco, a poucos metros do Cruzeiro da cidade, que deve servir de heliponto. Hoje, há cinco pacientes internados. "Na hora do rompimento, quem estiver no hospital vai ficar no hospital", diz. "A gente já comprou mais remédios e fez estoque de água e comida. É melhor pecar por excesso do que por falta."

Casamento marcado

Os alto-falantes do Santuário foram acionados à tarde, mas não houve correria ou confusão. Em vez do alerta dizendo que a barragem desmoronou, tocaram as notas da Marcha Nupcial. Às 17h11, a noiva, toda de branco e com véu arrastando no chão, caminhou sorridente até o altar. “O casamento estava marcado há um ano, foi uma coincidência absurda ser neste dia”, contou José Gervison, de 30 anos, cunhado do noivo.

A família até discutiu se o casamento deveria ser adiado, mas resolveu que não, segundo Gervison. A cerimônia transcorreu em clima de festa. Cerca de cem convidados - de roupa social e salto alto - cantaram "Parabéns Para Você" e ninguém fez menção à barragem. Isso até todos saírem da igreja para cumprimentar marido e mulher. "Imagina se a sirene toca agora", um comentou. Todos riram. 

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