Movimento adota ação em rede e rejeita estrutura burocrática

Dentro do Eu Voto Distrital, não há presidente, tesoureiro ou qualquer outro posto hierárquico e atuação é descentralizada

Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2011 | 00h00

O movimento Eu Voto Distrital usa o conceito de organização em rede - vários indivíduos, em várias partes do País (embora o grosso das assinaturas venha do Sudeste), cada um contribuindo de forma descentralizada. Quando indagados se a organização tem presidente, tesoureiro ou qualquer outro posto burocrático, a resposta é um veemente "não". "Quando um voluntário na Bahia imprime panfletos para divulgar o movimento, está contribuindo financeiramente", explica Emygdio Carvalho, o mais articulado do grupo e aparente líder (embora ele recuse o posto).

Tramitam no Congresso, hoje, duas propostas de emenda constitucional, ambas de autoria de parlamentares tucanos, que preveem a mudança do sistema eleitoral para o voto distrital nos moldes defendidos pelo movimento. Na Câmara, o Eu Voto Distrital apoia uma proposta apresentada pelo ex-deputado Arnaldo Madeira; no Senado, a proposta favorecida tem a assinatura de Aloysio Nunes.

Desconforto. O PSDB, aliás, é o único partido que fechou questão em torno do voto distrital. Diante da pergunta sobre como encaram o apoio tucano, tanto Emygdio, como os demais organizadores do movimento - Beatriz Pedreira, Vinícius Russo e Pablo Ribeiro - remexem-se desconfortavelmente em seus acentos e hesitam, divididos entre o número de assinaturas que a legenda poderia adicionar ao movimento e o desejo de se firmar como organização apartidária. "Somos um movimento de pessoas. Quem quiser contribuir, deve fazer isso individualmente e não sob a bandeira de um partido", diz Emygdio. "A questão do voto distrital não está fechada nem dentro do PSDB", acrescenta Beatriz, sem muita confiança na voz.

Consenso mínimo. Mesmo entre os jovens, contudo, as posições políticas são variadas. O grupo é formado por eleitores do ex-governador José Serra e da ex-senadora Marina Silva (nenhum declaradamente de Dilma Rousseff), e o consenso limita-se ao voto distrital. "Eu sou a favor do financiamento público", diz Pablo. "Eu não!", apressa-se em ressaltar Emygdio. Pablo nem sequer parece confiante de que a divisão do País em distritos é a melhor solução: "A decisão poderia ser tomada em um referendo. Mas o importante é trazer o assunto à tona", diz.

Os quatro organizadores estão conscientes de que defendem uma proposta polêmica. O site do movimento lista todas as objeções ao voto distrital e os contra-argumentos: o voto distrital poderia favorecer o coronelismo, dizem seus opositores; o coronelismo e a compra de votos são casos de polícia e não de sistema eleitoral, rebatem seus defensores. O voto distrital majoritário encareceria as campanhas para o Legislativo, afirmam seus detratores; ao contrário, o voto distrital baratearia as eleições, já que os candidatos concentrariam suas campanhas em um distrito, argumentam seus apoiadores.

Oposição. Os jovens sabem, também, que enfrentam oposição até de acadêmicos - o livro que usaram como principal referência, Sistemas Eleitorais, curiosamente foi escrito por um ferrenho opositor do voto distrital, o cientista político Jairo Nicolau. "Mas eu critico os cientistas políticos", ataca Beatriz. "Às vezes, você fica analisando, analisando, e não faz nada para mudar. Se eu estou insatisfeita com o sistema político no Brasil, tenho de descruzar os braços."

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