MP apura suspeita de fraude em perícia do IC

Laudo teria sido montado para livrar delegado acusado de tráfico

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

O Ministério Público Estadual (MPE) abriu um procedimento para apurar uma suposta falsa perícia no caso que envolve o ex-delegado do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) Robert Leon Carrel. Ele, o delegado Luiz Henrique de Moraes e os investigadores Cleuber Bueno e Ricardo Ganzerla são acusados de desviar cerca de 200 quilos de cocaína, aprendidos em Itu, no interior de São Paulo, em 2003. Eles foram soltos por decisão do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo na sexta-feira.As suspeitas de que o laudo do Instituto de Criminalística (IC) teria sido "montado" surgiram nas investigações do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do MPE. Entre as provas contra os envolvidos está um laudo do perito Ricardo Molina, elaborado com imagens feitas pela imprensa no momento da apreensão da droga. A análise volumétrica do carregamento mostrou que a quantidade de entorpecente no avião usado pelos traficantes (330 quilos) era maior do que a apresentada pelos investigadores de Carrel (98 quilos).A pedido da Corregedoria da Polícia Civil, que também investigava os policiais, o IC foi acionado. No documento de dez páginas, os peritos Osvaldo Negrini Neto e Marcelo Voloch afirmam que as "mensurações em imagens para comparar algo de tamanha seriedade são, no mínimo, irresponsáveis", referindo-se a Molina. O professor da Universidade Estadual de Campinas, dizem, teria confundido "alhos com bugalhos."Os promotores começaram a desconfiar da veracidade do laudo após receberem por correio uma cópia sem assinatura. Também chamou atenção as expressões usadas pelos peritos. "Não é normal o uso de termos pejorativos num laudo técnico", disse o promotor José Reinaldo Carneiro, do Gaeco. Diante desses indícios, Voloch foi chamado para prestar esclarecimentos. Em depoimento, disse que o texto final é de responsabilidade de Negrini, diretor do Centro de Exames, Análises e Pesquisas e seu chefe no IC.O perito reconheceu não ter "nenhuma condição de fazer uma avaliação sobre o trabalho de Molina e ressaltou que as considerações nesse sentido são de caráter subjetivo e nem deveriam constar do laudo final do IC". Sobre o fato de os promotores terem recebido uma cópia antes da conclusão do laudo, Voloch declarou: "Significa extração de via. O instituto jamais encaminha a quem quer que seja laudos periciais não assinados."Embora sob suspeita, as conclusões do laudo foram usadas pelo desembargador Pedro Gagliardi, do TJ paulista, para determinar, no início do mês, a soltura e a suspensão da ação penal contra os policiais. As apurações estão sendo feitas pelo Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep), do MPE. Os dois peritos devem começar a ser ouvidos em agosto.Procurado pelo Estado, Negrini reafirmou que o laudo de Molina estava cheio de falhas. Sobre a utilização do termo "alhos com bugalhos", o perito disse que é uma expressão popular, usada apenas com o objetivo de mostrar à Justiça que a análise do perito contratado pelo MPE está errada em, no mínimo, 75%. "Já usei esse expressão em artigos científicos", afirmou. Negrini também rebateu a versão de seu subordinado, dizendo que todos os laudos "difíceis" são submetidos à sua avaliação. "Não entendo porque o Ministério Público está agindo dessa forma nesse caso", comentou.Voloch não foi encontrado pela reportagem.

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