MP denuncia empresária e mais 4 por crime contra menina em GO

Silvia Calabresi e a doméstica Vanice Novais podem pegar até 31 anos de prisão; elas teriam usado práticas de guerra

O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

O Ministério Público de Goiás denunciou ontem cinco pessoas por envolvimento nos casos de tortura da menina L., de 12 anos, que foi encontrada acorrentada e amordaçada em uma cobertura em um bairro nobre de Goiânia. O promotor Cássio Sousa Lima, da 46ª Promotoria Criminal, enfatizou que a garota passou por "atos de extrema crueldade" semelhantes às práticas de tortura de guerra. A empresária Silvia Calabresi, acusada pelos crimes, e a doméstica Vanice Maria Novais, responsável pela execução dos castigos, foram denunciadas por tortura, cárcere e maus-tratos e, se condenadas, a pena pode chegar a 31 anos de prisão.O promotor encaminhou a denúncia em prazo recorde de apenas um dia e, diante da gravidade do caso, disse que, no máximo, em 110 dias espera que os envolvidos já estejam condenados. "O que aconteceu com a menina é muito pior do que foi retratado pela imprensa, é algo além da tortura", diz. Nos autos, ele destacou a forma cruel como a tortura foi praticada, até com lesões definitivas na menina, e o fato de o crime ter começado quando a vítima era criança, antes dos 12 anos. Além de Silvia e Vanice, também foram denunciados o marido da empresária, o engenheiro Marco Antônio Calabresi, o filho do casal, Thiago Calabresi Lima - ambos por omissão - e a faxineira Joana D?Arc da Silva, mãe biológica da vítima, por ter entregado a filha a Silvia mediante pagamento. Segundo denúncias feitas à polícia, a mulher recebia eventualmente ajuda financeira da empresária.Na denúncia, o promotor Lima expõe os detalhes da barbárie. Ele detalha que, quando L. era acorrentada, ficava com as mãos para cima, apoiada na ponta dos pés. Ela era mantida amordaçada com esparadrapo e um pano dentro da boca, o que aumentava sua fadiga e impedia que gritasse por socorro. A empresária e a doméstica ainda torturavam a menina, usando alicates para mutilar sua língua, colocando pimenta em sua boca, nariz e olhos, sufocando-a com sacola de plástico, esmagando seus dedos em portas.Consta também no texto que Silvia fez há dois anos proposta para que a mãe biológica permitisse que a menina vivesse e trabalhasse em sua casa. Em troca, Joana receberia dinheiro e a garantia de que a filha estudaria e teria acesso à educação e lazer. Dias depois da negociata, Silvia começou a cometer maus-tratos contra a menina e espancá-la diariamente.Segundo o texto apresentado pelo promotor, a menina apanhava com "tamancadas" na cabeça, "marteladas" nas solas dos pés, tapas e socos. Sua cabeça também era batida contra a parede. Após tanta tortura, L. passou a ter hematomas pelo corpo. Para justificá-los a familiares, vizinhos, amigos e colegas, Silvia dizia que a menina havia sofrido quedas. Silvia e Vanice submeteram a menina a sessões de tortura física e psicológica. Silvia impediu também L. de freqüentar a escola, para que não fosse denunciada e evitar que as lesões fossem vistas. Chegou até a ameaçá-la de morte. A garota foi impedida de sair do apartamento e deixou de visitar parentes, destacou o promotor. Além disso, Silvia privou a vítima de se alimentar e, segundo L., por diversas vezes, ofereceram-lhe fezes e urina de cachorro.O promotor Lima considerou ainda, na denúncia, que Lorena Reis, Karollina Monteiro, Allyne de Freitas e Simara Darc Vieira, todas menores à época que trabalharam para Silvia, foram submetidas a maus-tratos entre 2004 a 2005, com aplicação de surras, espancamento, trabalho forçado e ameaças de morte. O promotor pediu ainda que a menina torturada, o pai da vítima, Lourenço Rodrigues Ferreira, e Jaime Pereira Jardim, condutor do flagrante, sejam ouvidos no processo.

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