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MP investiga ameaças de morte a padre da Pastoral do Povo de Rua

Advogados e entidades que defendem os Direitos Humanos assinaram representação entregue ao órgão; Júlio Lancellotti diz que não teme

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 20h29
Atualizado 22 Março 2018 | 00h26

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE/SP) abriu uma investigação para apurar ameaças de morte contra o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua nas redes sociais. A apuração foi instaurada após o órgão receber, na terça-feira, 20, uma representação assinada por advogados e entidades defensoras dos direitos humanos apresentando a queixa.

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O documento, que é assinado pelo arcebispo metropolitano de São Paulo, d. Odilo Scherer, tem o apoio mais de 250 entidades, advogados e professores, e contém imagens de posts no Facebook com ofensas e ameaças de morte direcionadas ao padre.

O texto fala sobre a atuação de Lancellotti há mais de 30 anos com a população de rua e demonstra "preocupação com a integridade física tanto dos moradores de rua como dos que dispensam especial cuidado a essas pessoas, como é o caso do padre Julio Lancellotti".

Lancellotti diz que os comentários agressivos aumentaram nos últimos dias. "Esta hostilidade sempre existiu, mas se intensificaram na sexta-feira retrasada quando foi feita a higienização do Parque da Mooca. A partir dessa operação, escreveram 'morte ao padre Júlio', xingaram, ofenderam, disseram 'temos de achar o ponto fraco dele'. É uma articulação muito ruim, que (também) ofende os moradores de rua", diz o texto.

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O padre afirma que houve uma articulação em grupos fechados, também em redes sociais, que desencadeou as ofensas em sua página. "São grupos articulados que criminalizam a população de rua. Eles querem me destruir para que essa população não tenha mais apoio. Muitas vezes, quando está tendo alguma ação, eu fotografo, filmo e denuncio."

Ele critica as operações de limpeza urbana que se deparam com pessoas em situação de rua. "A Prefeitura tem uma portaria, mas não a obedece. A GCM (Guarda Civil Metropolitana), a Polícia Militar e a Inova (empresa contratada para fazer a limpeza da cidade) são muito truculentas."

O padre se refere ao decreto 57.581/17 com as orientações para as operações de zeladoria, cujo texto é uma atualização de um decreto da gestão Fernando Haddad (PT), que impedia a retirada de itens como colchões e moradores de rua - isso foi suprimido no novo texto.

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Sem demonstrar tensão, Lancellotti afirmou não temer que as ameaças saiam do ambiente virtual. "Ligam na paróquia São Miguel Arcanjo e fazem ofensas, mas as secretárias são orientadas para não rebater. Não tenho medo. O que me fere é ver os moradores de rua sendo maltratados. As pessoas não podem perder o limite e conclamar a morte de ninguém. Espero que se ponha um limite e que haja uma contraonda de solidariedade."

Outro lado

A Prefeitura informou que a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) intensificou ações no Parque da Mooca a partir do dia 1° deste mês para fornecer informações sobre a rede de assistência oferecida pela pasta.

"De 1 a 18 de março, foram realizadas 176 abordagens dentro do parque, sendo estas sete orientações, seis encaminhamentos para almoço e 163 encaminhamentos para vaga de pernoite em centros de acolhida".

Informou que a Secretaria Municipal de Prefeituras Regionais não recebeu denúncias sobre a ação de funcionários na região. A gestão disse ainda que o trabalho da GCM segue todas as medidas legais. Em nota, a Inova informou que não foi notificada sobre a situação de forma oficial. "Os fatos serão apurados a partir do recebimento da representação".

Sobre a atuação da Polícia Militar em operações envolvendo moradores de rua, a Secretaria de Estado de Segurança Pública informou que a PM "não foi notificada oficialmente a respeito dos detalhes e do teor das denúncias e que não houve registros relacionados ao caso na Corregedoria da Instituição". A pasta disse que a corporação prestou apoio operacional para segurança dos agentes no Parque da Mooca e que não era responsável pela ação.

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