Edmar Barros/ Futura Press
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Daniel Martins de Barros
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Mudança, estresse e compaixão

Se nós não queremos trocar sequer a senha da mala para não nos estressarmos, calcule o que é se sentir forçado a trocar de país como os refugiados

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2018 | 03h00

Uma das coisas que a gente mais gosta é ficar do jeito que está. Toda vez que precisamos fazer uma mudança o cérebro é obrigado a sair do modo de stand by e se pôr a trabalhar. Isso gasta energia, física e mental. É por isso que fugimos de mudanças. Somos programados para poupar energia, não esbanjá-la por aí. 

Os exemplos de como somos preguiçosos para mudar as coisas vão do prosaico ao dramático. Desde o fato de a maioria das pessoas nunca trocar a senha dos trincos e cadeados das malas (tente a senha padrão, 0-0-0-0, e você abrirá mais malas do que imagina) até a discrepância entre doadores de órgãos. 

A diferença de consentimento com a doação entre países semelhantes, como Áustria (99,98% de consentimento) e Alemanha (12%), ou Suécia (85,9%) e Dinamarca (4,25%), parecia inexplicável. A razão é que, no momento em que preenchem o documento para tirar carteira de motoristas, quando precisam dizer se serão ou não doadores, a pergunta era feita de duas formas diferentes. Nos locais de baixa adesão à doação havia uma frase mais ou menos assim: “Se você optar por se tornar um doador de órgão, marque um X aqui”. Já nos países com altas taxas de doadores a frase era: “Se você quiser optar por não ser um doador, marque um X aqui”. Ou seja, se assumimos que o default é ser doador, não fazemos força para mudá-lo. Mas se aceitamos que o padrão é não ser doador, também não gastamos energia para alterar isso. 

No fim dos anos 1960, dois médicos resolveram quantificar as coisas mais estressantes para o ser humano. O resultado foi a criação da Escala de Estresse Holmes e Rahe, que lista 43 eventos vitais considerados estressantes e lhes atribui uma nota, com base em uma pesquisa feita inicialmente com 400 participantes. Embora a metodologia científica que eles adotaram hoje seja criticável, tiveram o mérito de mostrar que eventos tão diferentes como casar ou mudar os hábitos de sono, ter filhos ou se formar, podem todos ser estressantes. O que os une é a necessidade que as pessoas terão de se esforçar para se adaptar a uma nova realidade de vida após eles. Os médicos conseguiram também, ainda que de maneira inicial, comprovar a associação entre o estresse e o adoecimento. A partir das notas desses eventos, eles criaram escores e mostraram que, quanto mais estresse alguém passa, maior a chance de adoecer. 

É bom ter esses fatos em mente antes de iniciar uma conversa sobre a questão dos refugiados. Pauta de discussão mundial na última década, o Brasil vinha se mantendo de fora do problema. Aparentemente ninguém queria muito se refugiar por aqui. Até que nosso entorno ficou tão ruim, tão ruim, que haitianos, há algum tempo, e venezuelanos, nos últimos meses, trouxeram para cá as questões enfrentadas pela Europa e Estados Unidos. 

Vou deixar os aspectos geopolíticos e históricos para os colunistas competentes na matéria. Se o enfrentamento dos problemas associados à imigração forçada não fosse tão complexo não haveria uma crise global, como comentei no blog do estadao.com.br.

Mas não podemos deixar que os fundamentais aspectos diplomáticos e econômicos envolvidos nos façam esquecer dos indivíduos que estão nessa situação. Se nós não queremos trocar sequer a senha da mala para não nos estressarmos, calcule o que é se sentir forçado a trocar de país. Só mesmo quando a situação é avaliada como intolerável é que o sujeito se submete a tal empreendimento. Sobretudo quando tem de submeter a essa jornada crianças e idosos para não abandonar a família. 

E depois de sair dessa situação extrema, a vida dele não melhora muito. Afastamento de familiares, perda de trabalho, lesões físicas, mudanças nas atividades sociais – pelo menos um terço dos fatores da escala de estresse aparecem de uma vez. Holmes e Rahes verificaram, na época, que 79% das pessoas com mais de 300 pontos de estresse na escala acabavam doentes. Na simulação que fiz, um refugiado típico crava uns 450 pontos de uma só tacada. 

Podemos não saber o que fazer com essas pessoas politicamente. Mas, por tudo isso, será que conseguimos pelo menos tratá-las bem?

* É PSIQUIATRA

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