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''Muitas representações não refletiam a realidade''

Retrato que a zona sul carioca fazia de si mesma se tornou hegemônico, mas por diversas vezes era apenas ideológico

, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Antes do doutorado sobre a "invenção da zona sul carioca", a geógrafa Elizabeth Dezouzart Cardoso havia abordado a formação de dois bairros do Rio em sua dissertação de mestrado, um na zona sul (Copacabana), outro na zona norte (Grajaú). Na última pesquisa, ela se inspirou no trabalho do geógrafo Nelson Fernandes sobre o "rapto ideológico" da palavra subúrbio, que perdeu o sentido habitual de local distante do centro para designar áreas pobres do Rio no início do século 20. "Comecei minha pesquisa com a hipótese de que a zona sul tinha surgido como contraponto aos subúrbios. Me enganei", diz Elizabeth. "Ela foi inventada quando já havia acontecido um boom imobiliário e o costume de ir à praia já era fenômeno de massa."

Na sua pesquisa, a primeira referência a "bairros sul" aparece numa reportagem que tinha como tema central problemas em favelas da região.

Em 1927, aparece no jornal Beira-Mar a primeira referência ao termo zona sul. Este termo só apareceria num jornal de grande circulação, o Correio da Manhã, em 1940. As favelas nasceram em fins do século 19, no centro, e acompanharam a evolução da ocupação dos bairros onde havia terrenos baratos ou desocupados, como a zona sul.

Por que o termo zona sul demorou tanto para se firmar?

Porque foi um termo mal colocado. Sul de quê? Norte de quê? Só surgiu para nomear o que não era subúrbio. Até que geógrafos vieram dar "cientificidade" a esses termos, localizando-os relativamente ao Maciço da Carioca.

Havia concordância entre as representações que se faziam sobre a zona sul no resto da cidade e as que a região fazia de si?

Sim. As representações que a zona sul fazia de si mesma acabaram por se tornar hegemônicas, sendo largamente aceitas por uma população mais vasta da cidade. Muitas delas, entretanto, eram verdadeiras ideologias, não condiziam com a realidade da área.

Na música Subúrbio, que abre o disco Carioca (2006), Chico Buarque fala de um Rio que "não figura no mapa/no avesso da montanha". Antes da ocupação do litoral, muitos bairros da zona norte eram valorizados pela classe alta. Houve uma inversão?

Não exatamente. Até princípios do século 20, eram encontrados representantes de camadas abastadas em chácaras tanto nas atuais zonas norte e sul como no subúrbio. No início do século 20, as classes abastadas passaram a se autossegregar na zona sul.

As praias se popularizaram no século 20, inclusive como destino turístico. Isso teve papel decisivo na valorização da zona sul?

No século 20, quando da maior ocupação de Copacabana, a praia voltou-se para o lazer, passando a ter papel fundamental na atração da população. As novas praias que se abriam à ocupação, Copacabana, Ipanema e Leblon, com os novos hábitos de vestir e lazer, contribuíram para a disseminação de representações positivas sobre a zona sul.

Na década de 1960, várias favelas da zona sul foram removidas. O atual prefeito, Eduardo Paes (PMDB), já declarou que a remoção não deve ser um "tabu". Como vê essa discussão?

Penso que se deve investir em habitações populares em áreas acessíveis para tentar conter o crescimento das já existentes. Não creio que um programa de remoções ponha fim às favelas.

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