'Muitas se sentem sem valor'

Andrew Solomon relatou uma depressão devastadora no livro "O Demônio do Meio-Dia"

Entrevista com

Andrew Solomon, Escritor americano

Monica Manir, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2016 | 05h00

SÃO PAULO  - Atingido por uma depressão devastadora, da qual se ergueu usando os remédios certos e uma rede amorosa de apoio, Andrew Solomon relatou todo o processo em O Demônio do Meio-Dia. Onze anos mais tarde, em 2012, ele preencheu outro livro, Longe da Árvore (ambos da Companhia das Letras), com a experiência de pais tentando educar filhos “complicados”. Abaixo, Solomon junta as duas vivências para falar de antidepressivos no mundo feminino.

As moças estão mais propensas à depressão do que os rapazes?

Sim. Parte disso é biológico: elas têm uma flutuação hormonal, que pode lançá-las à depressão. Mas parte é social. A depressão dos meninos muitas vezes se manifesta de forma violenta, o que não é interpretado como doença. Já as meninas costumam se retrair, e isso tem mais cara de depressão. Além disso, nesse mundo desigual, elas muitas vezes se sentem mais desvalorizadas do que eles.

As redes sociais podem acentuar as crises de ansiedade?

Estamos todos vulneráveis online. Talvez as meninas um pouco mais, porque preocupadíssimas em vender a aparência. A autoconfiança pode ficar abalada por avaliações públicas implacáveis. Além disso, e-mail e mensagens de texto, esses bits repentinos de comunicação, chegam carregados de inconsistência. As mulheres se sentem perseguidas e esquecidas, o que pode provocar muita dor.

Vê exagero na prescrição de antidepressivos?

Os antidepressivos são tanto overprescritos como subprescritos. Estou mais preocupado com o segundo caso. Tem quem os tome para fugir de problemas comuns, mas, na minha experiência, essas pessoas acabam largando o medicamento quando percebem sua ineficácia nessa situação. Enquanto isso, aquelas que de fato precisam do remédio e não o tomam às vezes cometem suicídio.

Como falar de drogas com os filhos sem parecer moralista?

É mais fácil se comunicar contando a história de quem teve a vida arrasada pelas drogas, por exemplo, do que por meio de suspeitas e proibições. Ganha-se mais adeptos dessa forma. E, para não parecer muito moralista, também pode-se dizer algo assim: “Eu sei que você talvez queira experimentar. Eu também quis. Pode fazer parte do crescimento. Mas a minha preocupação é que o problema das drogas virou uma epidemia, garotas e garotos estão perdendo suas vidas por causa disso. E eu não quero que você perca a sua – não só porque seria muito triste para mim, mas porque seria triste demais para você. Você tem a vida toda pela frente, para fazer diferença no mundo”.

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