Muito além do chá dos imortais, a ABL se revela aos visitantes

Eventos abertos na sede da ?guardiã da língua e literatura? atraem um público crescente

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

Instalada em um belíssimo prédio em estilo neoclássico no centro do Rio, réplica do Petit Trianon de Versalhes, a Academia Brasileira de Letras (ABL) sempre foi admirada pelos cariocas por fora e de longe. Nos últimos anos, graças a um esforço de acadêmicos que defendem a abertura maior da casa ao público, passa a ser descoberta também por dentro. A programação cultural, que inclui atividades variadas - e gratuitas -, tem sido tão caprichada que há casos em que falta lugar para tanta gente.Foi assim no dia 17, quando a atriz Fernanda Montenegro fez, no confortável Teatro R. Magalhães Jr., uma emocionante leitura dramática de parte do livro Capitu, Memórias Póstumas, do imortal Domício Proença Filho. As senhas foram insuficientes para a pequena multidão que se formou no portão da Academia. "Fiquei chateado porque não consegui entrar. Soube que foi lindo. Hoje, fiz questão de chegar mais cedo e garantir minha poltrona", contou o médico Moysés Serfaty, de 57 anos, na quinta-feira. Ele foi assistir ao seminário Linguagens da Periferia Urbana, parte do bem-sucedido ciclo Brasil, Brasis, realizado desde 2006."A ABL está chegando mais perto do público, o que é ótimo, porque aqui existem pessoas brilhantes", disse Serfaty. A idéia é exatamente essa: aproximar da sociedade os acadêmicos e a Academia, por meio da promoção de shows de música erudita e popular, debates, sessões de cinema, palestras e oficinas de dramatização. A casa tem ainda uma grande biblioteca, que poucos conhecem. "A ABL não pode ser um rendez-vous (encontro) com a morte. A gente não vem aqui para tomar chá, esperar que alguém morra, fazer uma eleição, enfiar o fardão e dar posse", defende Marcos Vilaça, presidente entre 2006 e 2007. Sua gestão foi marcada pela "obsessão" no sentido de ampliar o acesso à casa.Cícero Sandroni, o ocupante, desde dezembro de 2007, da posição que, há 111 anos, quando da fundação, foi de Machado de Assis, pensa da mesma forma. "Hoje, somos um pólo cultural, com uma variedade de atividades que muitas vezes é ignorada." Ele acha que a ABL ainda é muito marcada pela imagem dos "velhinhos que se reúnem para tomar chá", mas ressalta que ninguém ali está parado.Uma tradição desde a criação, o chá, acompanhado de bolos, biscoitinhos, croissants e outras delícias, é servido às quintas-feiras, a partir das 15 horas, uma hora antes da sessão plenária. É durante essa reunião que são discutidos os assuntos da semana, os próximos eventos e questões administrativas.Dos 39 membros, normalmente metade é vista por lá freqüentemente (parte não mora no Rio). Eram 40 os acadêmicos até a morte de Zélia Gattai, em maio. Ela tinha 91 anos (era umas das mais idosas). Atualmente, são três nonagenários; o mais jovem da casa é Antonio Carlos Secchin, com 56 anos. A média de idade é 75,5 anos.COMEMORAÇÕESEste 2008 é fértil em datas importantes: a mais lembrada é o centenário da morte de Machado, que ocupa grande parte da programação (leituras dramatizadas, conferências sobre diferentes aspectos de sua literatura, concertos com A Música que Machado Ouvia, filmes baseados na obra). Uma interessante exposição, Machado Vive!, anunciada como a maior sobre ele já realizada, mostra parte de seu mobiliário e coleção de livros, e conta sua trajetória, do Morro do Livramento à glória nacional e traduções no exterior.O ano é ainda o do centenário do nascimento de João Guimarães Rosa e o da morte de Artur Azevedo, dos 400 anos do Padre Antônio Vieira, dos 200 anos da vinda da família real portuguesa para o Brasil e da criação da Imprensa Régia e dos 50 anos da bossa nova. Tudo virou tema de eventos abertos.Concebida para cultivar "a língua e a literatura nacional", a ABL pôde investir nessa programação a partir do início deste século. Foi quando começou a receber dinheiro dos aluguéis dos escritórios que funcionam nos 28 andares do Palácio Austregésilo de Athayde, no terreno do Petit Trianon - hoje sua maior fonte de recursos.

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