Mulher de Amarildo diz que traficante negou ligação com sumiço de pedreiro

Comandante da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha, um dos investigados pelo desaparecimento, será transferido

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2013 | 11h17

RIO - Num depoimento que durou cerca de três horas no Ministério Público do Rio, Elisabete Gomes da Silva, de 48 anos, disse nessa terça-feira, 27, que recentemente foi procurada na Rocinha pelo traficante Catatau, que negou ser o responsável pelo sumiço de seu marido, o pedreiro Amarildo Dias de Souza, de 43 anos. Catatau teria dito ainda que os dois foram criados na Rocinha, e que não seria capaz de matá-lo. Segundo Bete, Catatau decidiu procurá-la após policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ficarem gritando pela favela para ela "perguntar para o Catatau onde estava o Amarildo". O pedreiro está sumido desde a noite de 14 de julho, quando foi conduzido por PMs de sua casa, na Rua 2, até à sede da UPP Rocinha, no Portão Vermelho, na parte alta da favela.

A Polícia Militar vai realizar nos próximos dias um rodízio no comando de algumas das 33 UPPs inauguradas até agora na cidade. Comandante da UPP Rocinha, o major Edson Santos será um dos transferidos. Ele é um dos investigados pelo sumiço de Amarildo, já que confirmou em depoimento ter liberado o pedreiro da UPP depois de confirmar que ele não era procurado por tráfico.

Fontes da PM ouvidas pelo Estado disseram que o "rodízio" visa a resolver dois problemas com uma só medida. O primeiro é afastar Santos da UPP Rocinha, o que vem sendo exigido abertamente por parentes de Amarildo, representantes da sociedade civil e até membros do MP. O segundo é não criminalizar o oficial antes do término das investigações.

Depoimento. Bete foi ouvida no inquérito policial militar (IPM) aberto pela Corregedoria da Polícia Militar para apurar a suposta prática de sequestro de Amarildo por PMs. Indagada pelos oficiais encarregados do IPM se conhecia Catatau, Bete disse que sim, porque mora há muito tempo na Rocinha. Ela, no entanto, negou ter relação de intimidade com o criminoso.

O depoimento de Bete havia sido marcado para ocorrer na Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, foi mas foi realizado na sede do MP, no centro, a pedido do advogado João Tancredo, que representa a família de Amarildo.

"As perguntas foram no sentido de criminalizar o Amarildo, numa tentativa de provar que ele tinha envolvimento com o tráfico. Querem transformar a vítima em bandido para legitimar a conduta da PM de ter desaparecido com ele", afirmou Tancredo.

O traficante Catatau foi identificado como Thiago da Silva Mendes Neris no inquérito da 15ª DP (Gávea) que resultou na Operação Paz Armada. A ação foi desencadeada em 13 de julho, um dia antes do sumiço de Amarildo, e prendeu 33 suspeitos de ligação com o tráfico na Rocinha. Catatau foi denunciado à Justiça por tráfico, teve a prisão preventiva decretada, mas permanece foragido.

O delegado Ruchester Marreiros, que era adjunto da 15ª DP e presidiu o inquérito da Paz Armada, disse que o bandido aparece num grampo telefônico supostamente assumindo a autoria da morte de Amarildo para "colocar na conta da UPP". Por sua vez, o delegado titular da 15ª DP, Orlando Zaccone, desqualificou a informação em seu relatório encaminhado à Justiça.

Bete afirmou que vai fazer um registro de ameaça na 15ª DP contra PMs da UPP. Em depoimento à Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil na segunda-feira, ela contou que um sobrinho foi ameaçado na tarde do último domingo. "Disseram que ele deu sorte porque não era noite e eles não estavam em uma viela". A DH apura o suposto assassinato de Amarildo desde 1º de agosto. São investigadas duas hipóteses: que o crime tenha sido cometido por PMs da UPP ou traficantes da Rocinha.

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