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Mulheres e álcool

Um dilema pode estar ganhando espaço na vida das mulheres bem-sucedidas profissionalmente: elas estão bebendo mais e de forma perigosa. Essa é uma das principais conclusões de um novo relatório divulgado na última semana pelo jornal britânico Daily Mail. 

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 03h00

Segundo estudo inédito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade internacional que congrega 34 países da Europa, América, Ásia e Oceania, a geração de mulheres que mais estudou e galgou postos no mercado de trabalho é a que mais tem problemas com álcool. 

Para os pesquisadores, a principal razão para esse comportamento está relacionada à necessidade feminina de adotar hábitos sociais semelhantes aos colegas do sexo masculino na sua rotina de trabalho. Segundo o relatório, esse seria o “lado oculto da igualdade”.

Mas muitas mulheres que se destacam em sua vida profissional discordam dessa conclusão. Para elas, o beber de forma exagerada não acontece pelas pressões no ambiente de trabalho, mas pode ser uma tentativa de aliviar os impactos provocados pela carreira em sua vida pessoal, como a solidão.

Na corrida para crescer profissionalmente, muitas adiaram seu projeto de casamento e maternidade, chegando sozinhas à maturidade. Hoje, uma em cada quatro mulheres britânicas acima dos 40 anos não tem filhos. Outras beberiam para lidar com as dificuldades resultantes do divórcio, como tristeza e depressão. No Reino Unido, 40% dos casamentos resultam em divórcio. Nos EUA, um terço dos casamentos acaba antes dos 10 anos e, no Brasil, de 20% a 25% deles se desfazem na primeira década após a união.

Ainda para outras profissionais, o abuso de bebida poderia ter outras causas. O álcool poderia funcionar como conforto e compensação para “fantasmas” que ainda povoam o universo feminino, apesar das sólidas conquistas no trabalho. Elas tenderiam muito mais a internalizar críticas e enfrentar emoções como culpa, vergonha e autoestima. No momento da confraternização da happy hour, ao lado de colegas homens, mesmo com tolerância mais baixa aos efeitos do álcool, elas beberiam de forma semelhante, tendo impactos mais drásticos em sua saúde e comportamento. 

Uma dose a menos, por favor. Ainda segundo o relatório da OCDE, quatro em cada cinco pessoas poderiam viver mais se reduzissem o consumo de álcool em apenas uma unidade por semana (por exemplo, meia taça de vinho ou um copo de cerveja a menos). 

Dois terços da população inglesa bebem hoje pela menos uma vez por semana, e metade deles excede a quantidade de álcool recomendada pelas autoridades de saúde. O consumo de álcool subiu 10% no Reino Unido nos últimos 30 anos, enquanto em boa parte da Europa ele tem diminuído. 

Beber no começo da gravidez. Outro trabalho divulgado na última semana pelo jornal Daily Mail, realizado pela Universidade de Helsinque (Finlândia), mostra que mulheres que bebem nas primeiras seis semanas de gestação (muitas ainda sem saber que estão grávidas) podem prejudicar a saúde dos seus filhos. 

Entre os principais problemas estariam a hiperatividade e o retardo no crescimento. O impacto pode ser permanente. Estudos anteriores já apontavam que o consumo de álcool na gestação poderia estar relacionado a dificuldades cognitivas nas crianças. 

A pesquisa sugere que o álcool pode interferir no funcionamento do epigenoma do DNA (processos e reações químicas que regulam a expressão do nosso material genético) das células do sistema nervoso central, principalmente no hipocampo, área do cérebro envolvida com memória e aprendizagem. 

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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