Capítulo 02

Mulheres ganham menos do que homens, e daí? E daí, tudo. De ruim

Brasil vem piorando em relação ao mundo quando o assunto é 'gender gap'

Carla Miranda, São Paulo

03 de abril de 2019 | 20h00

A desigualdade entre homens e mulheres está diminuindo. Na Suécia. E também na Namíbia, na Nicarágua, no México. Mais precisamente, em 89 dos 144 países acompanhados na série histórica do Fórum Econômico Mundial. São nações que conseguiram reduzir a diferença entre os gêneros nas áreas de economia, política, educação e acesso à saúde. O mundo vem avançando quando se trata de igualdade, mesmo que de forma bem mais lenta do que nós, mulheres, gostaríamos. O Brasil? 

Não é que o Brasil somente não esteja caminhando para reduzir a dessemelhança entre homens e mulheres, o chamado gender gap. O País vem piorando em relação ao mundo. Em 2016, estávamos na 79ª posição. De lá para cá, foram duas quedas na sequência. Primeiro, para o 90º lugar. E ficou pior – agora mesmo, em dezembro do ano passado, já aparecíamos no 95º.   

É mulher? Trabalha fora de casa? Provavelmente você já sentiu os efeitos de um dos índices em que o Brasil tem pior desempenho global: o de igualdade de salários entre homens e mulheres exercendo a mesma função. Para falar de modo ainda mais claro, há grandes chances de você estar recebendo menos no fim do mês do que seu colega homem que está na mesa ao lado.  Só por ser mulher.

Na pontuação que vai de 0 a 1 estabelecida pelo Fórum Mundial, em que estar mais perto do zero significa garantir menor paridade de gênero, atingimos apenas 0,489. No ranking geral, isso significa ocupar a 132ª posição entre as 144 possíveis. Atrás de nós fica um time bem pequeno, que inclui El Salvador e Mauritânia, por exemplo. 

Em 13 de março, pouco depois do Dia Internacional da Mulher, o Senado aprovou um projeto (PLS 88/2015) que prevê multa para as empresas que não pagarem salários iguais a homens e mulheres com as mesmas atribuições. O mesmo valeria para discriminação por idade, cor e situação familiar. Na realidade, trata-se de um acréscimo ao texto da Consolidação das Leis do Trabalho, que já dava a garantia do mesmo vencimento, independentemente do gênero. 

Pelo texto, que seguiu para tramitação na Câmara, as trabalhadoras receberiam em dobro a diferença salarial verificada mês a mês. Isso se a ilegalidade for comprovada judicialmente. Mas como uma funcionária vai conseguir fazer isso? Especialistas em direito trabalhista já alertam para possíveis armadilhas, como a tentativa por parte de alguns empregadores de mascarar a diferença. Também dizem que, quanto mais alto for o cargo que a mulher ocupe, mais difícil será provar a desigualdade. 

As distinções não param por aí. As mulheres no Brasil ganham menos por hora trabalhada, segundo estudo divulgado em 8 de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2018, eram R$ 13 em média para elas, contra os R$ 14,2 para os homens. Pode parecer uma diferença pequena, pouco mais do que um real, mas as consequências são duras. As mulheres ganham menos por hora e trabalham menos horas remuneradas. Muitas cuidam da casa, dos filhos, dos pais idosos, em jornadas duplas, triplas. O resultado é um salário médio 79,5% menor que o dos homens: R$ 2.050 para os R$ 2.579 recebidos por eles ao mês. 

A escolaridade também costuma ser usada, no mundo, para tentar justificar a diferença de ganhos. O que dizer, então, do caso brasileiro, em que um pouco mais de 18% dos homens inseridos no mercado de trabalho têm ensino superior. Entre as mulheres, o porcentual é de quase 23%. Trocando em miúdos: elas estudam mais e ganham menos. Fora que são maioria nas pós-graduações, embora as maiores bolsas de pesquisa fiquem com eles.

Estamos falando, ainda, tão somente das diferenças entre os gêneros. O que acontece se você for parda, negra, indígena? Se for homossexual ou trans? Se não tiver tido a oportunidade de uma educação formal ou não conseguir trabalhar porque não há vaga para o seu filho na creche pública? Essa reflexão é apenas a ponta de um iceberg de desigualdades. O primeiro de muitos. Prontos para afundar o transatlântico. “Mulheres ganham menos do que homens, e daí?”, perguntam alguns. E daí, tudo. De ruim. Para elas e para a sociedade.    

 

Carla Miranda

Carla Miranda

Editora do Capitu

Jornalista, doutora em comunicação e mãe de duas meninas superpoderosas. Especialista em jornadas duplas ou triplas, como quase toda brasileira.

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