Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Mulheres relatam ‘saga’ e frustração até o parto normal

Elas contam que foram intimidadas e pressionadas para optar pela cesárea; Ministério da Saúde faz novas regras para mudar quadro

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 18h45

A opção pelo parto normal transformou a gravidez da empresária Lilian Cardoso, de 31 anos, em uma peregrinação por consultórios médicos. Só no sétimo mês de gestação, após consultar quatro profissionais, ela encontrou uma obstetra disposta a respeitar sua vontade. Mesmo sem ter nenhuma contraindicação para o parto natural, Lilian ouviu de três médicos que a cesárea seria a melhor opção, independentemente do seu quadro de saúde.

Assim como ela, outras mulheres dizem ter se sentido intimidadas ou pressionadas pelos médicos a optarem pela intervenção cirúrgica no parto. Na terça, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) anunciaram medidas para tentar barrar a alta na taxa de cesarianas no Brasil, a maior do mundo. Na rede particular, ela chega a 84,5% dos partos, quando o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de apenas 15%.

A postura dos médicos consultados por Lilian não a fez mudar de ideia. Outras gestantes, porém, por medo ou desinformação, acabam cedendo à pressão do obstetra. “O primeiro médico disse que só fazia cesárea. A segunda falou que não via vantagem nenhuma no parto natural, que eu ia sentir dor, ia forçar a bexiga, poderia desenvolver hemorroida. A terceira até falou que fazia normal, mas disse que, dependendo do dia, ia mandar uma amiga médica me atender. Fui ficando muito decepcionada. Se eu não tivesse batalhado, insistido, eu teria ido para a cesárea”, conta ela, mãe de Catarina, de 3 anos.

O parto normal também era a preferência da administradora de empresas Adriana Ferreira Kreuzer, de 32 anos, mas o desfecho de sua primeira gestação, há seis anos, foi totalmente diferente do de Lilian. “Passei a gravidez inteira fazendo o pré-natal com um médico que disse que fazia os dois tipos de parto e eu avisei que queria tentar o normal. Na última consulta, quando eu estava com 40 semanas, ele apenas me comunicou: ‘sua cesárea está agendada para amanhã. Esteja na maternidade às 6 horas’. Ele disse que eu não teria dilatação. Fiquei sem reação, muito frustrada, mas não reagi por falta de experiência”, conta ela, mãe de Gustavo, de 6 anos, e de Heitor, de 4.

Na segunda gestação, Adriana buscou mais informações e encontrou um profissional disposto a realizar o parto normal. “Consegui realizar minha vontade, mas, durante o trabalho de parto, quando estava reclamando de dor, ainda tive de ouvir de uma enfermeira: ‘Você não queria normal? Agora aguenta’”, conta ela.

A jornalista Anna Luiza Lima Guimarães, de 30 anos, tenta repetir o caminho de Adriana. Por pressão dos médicos, ela também teve o primeiro filho, Bento, de 3 anos, por cesárea. Agora, grávida de seis meses do segundo filho, espera conseguir ter o bebê de forma natural.

“Passei por dois médicos que não aceitaram fazer parto normal por eu ter feito uma cesárea. O terceiro médico aceitava, mas cobrava R$ 17 mil e não atendia meu plano de saúde. Há um mês e meio, encontrei uma médica do plano que aceita fazer, mas ainda tenho medo de chegar na hora e me mandarem para o centro cirúrgico”, diz ela. “É triste, a gente nem consegue curtir a gravidez. Parece que está implorando para o médico fazer o que deveria ser o procedimento natural.”

Modelo errado. Presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Etelvino Trindade diz que profissionais que pressionam gestantes a fazer cesariana mesmo sem indicação são minoria e a alta taxa desse tipo de parto no Brasil é consequência de um modelo errado, com múltiplos fatores. “Um dos problemas é a remuneração dos planos. Tem operadora que paga R$ 300 por um parto, mas, no caso do normal, o tempo exigido do médico é muito maior. A remuneração deve ser maior, mas também é preciso que a formação médica na faculdade e na residência tire o foco da cesárea e mostre que o mais comum deve ser o parto normal”, afirma.

Trindade também defende uma campanha educativa para as gestantes. “A dor, que é natural do parto, é vista como algo intolerável por algumas mulheres. Também há quem pense que a saída do bebê pela vagina pode prejudicar o desempenho sexual da mulher no futuro. Essas coisas precisam ser esclarecidas”, diz.

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