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Múltiplas janelas, pior desempenho?

Estudo divulgado na semana passada sugere que adolescentes que se ocupam de múltiplas tarefas tecnológicas ao mesmo tempo podem ter um pior desempenho escolar, maior dificuldade de memória e mais impulsividade. O trabalho, feito com um grupo de 73 jovens da região de Boston, nos Estados Unidos, avaliou as horas que eles gastam vendo TV ou vídeos, ouvindo música, jogando games, lendo em mídias eletrônicas, falando ao telefone e trocando mensagens. Em cerca de 25% do tempo eles combinam diferentes tarefas, como mandar mensagens enquanto assistem a um vídeo.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2016 | 03h20

Os jovens que mais tempo permaneceram conectados em múltiplas tarefas tiveram piores notas em Matemática e Inglês. Eles também apresentaram desempenho mais precário ao usar sua “memória de trabalho” – um tipo de memória de curto prazo em que a pessoa armazena informações para solucionar problemas imediatos.

Além disso, tiveram reações mais impulsivas do que aqueles que passam menos tempo em múltiplas tarefas. O estudo, realizado pela Universidade de Toronto, no Canadá, e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi publicado na versão online do periódico Psychonomic Bulletin & Review e divulgado pelo jornal inglês Daily Mail e pelo site Live Science.

Segundo especialistas, o trabalho reforça estudos anteriores com adultos, que mostram que quem executa tarefas múltiplas nas mídias eletrônicas tem pior capacidade de memória de curto prazo e prejuízo na concentração. A tendência, segundo a pesquisa, poderia se originar na adolescência.

Causa ou consequência?. Será que a possível piora de desempenho e a impulsividade nas respostas dos jovens é mesmo consequência de eles estarem envolvidos em múltiplas atividades digitais ao mesmo tempo? Ou será que eles já eram naturalmente mais desatentos e acabam usando as diversas mídias simultaneamente, pulando de uma tarefa para outra, como forma de tentar focar sua concentração? Seria, então, uma maneira de lidar com um jeito diferente de ser dos jovens, em que há uma facilidade em se perder o foco e se distrair?

Essas dúvidas são levantadas pelos pesquisadores ao constatar que as alterações acontecem em cérebros jovens, ainda em fase de desenvolvimento.

Algumas críticas podem ser feitas ao trabalho. A primeira delas é que ele foi feito em um universo relativamente pequeno de jovens e, como toda boa ciência, precisaria ser replicado em outros grupos e em maior escala. A segunda crítica e, talvez a mais importante, é que essa geração tem uma maneira muito peculiar de lidar com as novas tecnologias e com a construção da informação. Assim, se os jovens têm maior dificuldade em focar em um único objeto, como uma aula ou uma prova de Matemática ou Inglês, eles ganham em agilidade e capacidade de integração ao executar múltiplas tarefas ao mesmo tempo.

Ao contrário dos mais velhos, esses jovens navegariam pelas diferentes “janelas” com mais facilidade, tendo uma espécie de “atenção flutuante”. Daí a pergunta que surge é: será que a prova objetiva é a melhor maneira de avaliar esse novo jeito de lidar com o conhecimento? Será que não são a sala de aula e a avaliação que deveriam se adaptar a essa geração?

Um trabalho recente da Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos, mostra que, qua

ndo se permite livre acesso dos alunos a laptops, tablets e celulares durante as aulas, há uma queda de cerca de 20% do nível de atenção. Eles rapidamente tendem a interagir com outros conteúdos, resolver tarefas de disciplinas distintas e até entrar nas mídias sociais para falar com seus contatos.

Se essa “atenção flutuante” pode piorar um tipo específico de aprendizado, será que ela não poderia ser revertida em outro tipo de ganho? Esses são alguns dos desafios para os educadores em um mundo tecnológico que muda rapidamente e que interage com um jovem que age e pensa de forma muito peculiar.

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