Municipal sai à caça de painel que sumiu

Direção do teatro carioca vai pôr anúncio em jornais para achar obra

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

13 Agosto 2009 | 00h00

Na década de 1970, não se sabe como, um painel de azulejos trazidos de Paris no início do século 20 foi inteiramente retirado de uma das varandas do Teatro Municipal do Rio. Presume-se que tenha sido durante uma reforma que fechou o lugar por mais de dois anos. Jamais houve grande mobilização para reaver a obra. Passados mais de 30 anos, a direção se vale da festa do centenário do teatro, novamente em obras, para tentar sensibilizar quem quer que esteja com os azulejos. Nas próximas semanas, vai colocar anúncios em jornais do Rio, Brasília, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul pedindo informações sobre a obra, com a única foto que existe, registrada em um livro. "Em todos esses anos, ninguém fez o menor esforço para procurar. Queria que as pessoas tivessem um gesto qualquer de afetividade, não que sintam medo de devolver. Quem fizer isso tem de se sentir um herói", diz Carla Camurati, presidente da Fundação Theatro Municipal. Ela trabalha para devolver ao foyer 38 pingentes de cobre que adornavam colunas, roubados durante outra obra, nos anos 1980. "Já mandamos reproduzir", conta. A previsão para a reabertura é novembro. O painel, composto por 350 peças, simbolizava a dança antiga e ficava na varanda que dá para a Rua 13 de Maio, a lateral do teatro. Estava lá desde sua fundação, em 1909. Na imagem, pintada em relevo, bailarinas com vestidos greco-romanos dançam em frente a um templo. A varanda da Avenida Rio Branco é adornada por um de mesmo tamanho e origem (um ateliê parisiense que existe até hoje), só que referente à dança moderna. A parede vazia destoa do luxo, que está por toda parte. Regina Pontin de Mattos, diretora do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), acredita que o painel não tenha sido desmembrado - já que formam uma imagem, suas peças não teriam valor individualmente. Acha bem possível que os azulejos não tenham se quebrado, pois são resistentes. Ela prefere não usar a palavra "roubo". "A pessoa que tirou tinha certeza do que estava fazendo, fez com cuidado. Pode ter sido vendido, pode estar num antiquário, ou escondido num porão. Mas não estamos pensando no lado da penalidade. Quem sabe não colocam a mão na consciência?" A fim de levantar mais dados sobre o painel, antigos frequentadores serão convocados a procurar em seus guardados fotografias que possam tê-lo como pano de fundo - dos bailes de carnaval realizados até a década de 1970, por exemplo. Imagina-se que os azulejos tenham sido levados em caixas. Já se falou que poderia estar na parede de uma fazenda. Ou mesmo no fundo da piscina de uma mansão. Pior: que teriam sido jogados no lixo por um operário desatento. São especulações. Outra, como lembra o escritor Edgar de Brito Chaves Junior, autor de livros como Diário do Municipal: 1971 - 1990, remete ao motivo da retirada do painel. "Havia boatos de que os azulejos estavam se desprendendo por causa do calor emanado por uma máquina de café instalada na varanda, para servir o público durante os intervalos." Chaves Junior se recorda de que não houve grande comoção quando da reabertura do teatro já sem a pintura. "Foi noticiado veladamente."

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