Musas garantem lotação no ´Setor Zero´ da Sapucaí

A visão dos desfiles das escolas de samba é quase nenhuma, não há proteção contra o sol e a chuva e é preciso chegar até cinco horas antes para conseguir um lugar para se sentar. As arquibancadas gratuitas montadas pela prefeitura do Rio na Avenida Presidente Vargas, junto ao Sambódromo, têm lá seus problemas, mas animação é o que não falta a quem sai de casa cedo para aproveitar o carnaval dali. Não só a obstinação, mas também a irreverência é marca do público do chamado "setor zero". Os apelidos do lugar são muitos: "Unidos do mangue", "Acadêmicos do Esgoto", "Setor 0800". "Eu só chamo de ´ponto v´. Não é v de vip, é v de valão mesmo", brinca o porteiro Alberto Cardoso, de 38 anos, que não abre mão de tentar ver suas musas ao vivo. No domingo, ele veio para acompanhar os passos de Carol Castro, madrinha da bateria do Salgueiro; nesta segunda, ele queria observar Juliana Paes, da Viradouro. "Elas são as mais simpáticas, assim como a Susana Vieira (da Grande Rio). Sabem que nós estamos aqui e acenam, mandam beijos." A escola do coração do porteiro, que é de Niterói, é mesmo a Viradouro, mas ele pretendia ficar até o sol raiar e assistir à Portela. "Assistir" é modo de dizer. Os 3.500 ocupantes das arquibancadas gratuitas, que desde o ano passado são erguidas de frente para o Sambódromo, não vêem o mesmo desfile acompanhado pelas arquibancadas pagas e pelos camarotes. O ponto escolhido pelo porteiro de Niterói é o mais disputado, porque de lá é possível enxergar, ao menos, o início da passarela. Nos demais, nem isso se vê. "Todo mundo quer ficar aqui, porque dá para acompanhar a armação e a colocação dos destaques nos carros. Ontem, vi a Angélica bem de pertinho (a apresentadora desfilou no alto de um carro da Caprichosos de Pilares). Ela mandou tchauzinho para nós", contou a auxiliar de enfermagem Célia Neto, de 40 anos, ao lado do marido. O casal chegou às 14 horas, mais de 7 horas antes de a Porto da Pedra, sua escola de devoção, adentrar a Sapucaí, e enfrentou sol forte até cair a noite. Quando sua situação financeira permitia, Célia desfilava no carnaval e comprava ingressos para os setores de dentro do Sambódromo para ver as outras escolas. Com o dinheiro curto, ela passou a se pendurar, como muitos outros cariocas, no viaduto São Sebastião, que passa sobre a Presidente Vargas. Este ano, ela bem que pensou em madrugar para conseguir um tíquete para o setor popular, a R$ 10. Mas desistiu porque não podia deixar de trabalhar para madrugar na fila. O sonho de Célia é, um dia, poder desfrutar das mordomias dos camarotes. "Queria todas aquelas frescuras: beber, comer e ver tudo de graça e, ainda por cima, com conforto", disse. "Lá tem ar condicionado, não é quente como aqui. E deve ser perfumado também. Duvido que tenha este cheiro do valão".

Agencia Estado,

27 Fevereiro 2006 | 18h49

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