Museu é reaberto em 'berço' da República

Histórico casarão de Itu recebe público a partir de hoje; obras continuam

Edison Veiga,

02 de fevereiro de 2010 | 07h34

PINTURA NOVA - Funcionário dá os últimos retoques na pintura do museu, para a reabertura de hoje; obra já consumiu R$ 500 mil

 

ITU - O olhar umedecido da professora aposentada Maria da Glória Lupurini Sampaio, de 77 anos, denuncia a importância que o velho sobrado do século 19 têm para os ituanos. Aliás, não só para os ituanos. Foi ali, no casarão do centro da cidade interiorana, que aconteceu, em 18 de abril de 1873, a primeira convenção republicana, durante a qual 133 entusiastas do novo regime definiram os pilares do movimento que, anos mais tarde, transformaria o Brasil em uma República.

 

Com o passar dos anos, o sobrado mudou de dono – na época da convenção, era da quatrocentona família Almeida Prado –, mas permaneceu no imaginário republicano paulista. Tanto que, em 1921, o governo estadual adquiriu o imóvel, transformando-o dois anos mais tarde em um museu à memória da causa republicana.

 

Administrado pela Universidade de São Paulo (USP) – é considerado anexo do Museu Paulista, no Ipiranga, em São Paulo, também gerido pela USP –, o espaço teve de ser fechado em abril de 2007. "Havia pontos de infiltração de água e tinha azulejo caindo, preso com fita adesiva", conta a historiadora Cecília Helena de Salles, diretora do museu.

 

Três anos e R$ 500 mil depois, o casarão reabre para visitação pública, embora a reforma ainda continue. Cecília estima que serão necessários mais R$ 2,5 milhões para deixá-lo tinindo: o prédio ficará acessível a deficientes, fios elétricos serão substituídos e outros problemas estruturais sanados.

 

HISTÓRIAS CRUZADAS

 

Para a aposentada Maria da Glória, o museu é quase da família. Seu pai, Arthur Ferraz Sampaio, esteve em sua inauguração, em 1923. Foi contratado como contínuo e depois promovido a zelador do museu, onde trabalhou até a morte, em 1939. "Então, ele foi substituído pela minha irmã, Maria Antonia, que também ficou no cargo até o fim da vida", conta Maria da Glória, misturando os fatos com recordações pessoais vividas dentro do histórico casarão. "Tenho orgulho, muito orgulho do museu." Desde a morte da irmã, em 1975, ela nunca mais havia entrado ali. Coincidentemente, esteve revisitando o espaço no mesmo dia em que a reportagem do Estado lá estava, na última quinta-feira. "A emoção e a felicidade são imensas. Estarei aqui na reinauguração", garantiu.

 

Outro com presença confirmada na festa é o historiador Jonas Soares de Souza, de 65 anos, que, em 1974, convidado a trabalhar no museu, trocou a capital paulista por Itu. "Virei ituano", repete ele, que, 35 anos depois, se aposentou no ano passado, ainda trabalhando na instituição. A história do casarão permanece viva em sua memória. "Também houve uma grande restauração na época em que vim para cá", lembra.

 

RESTAURAÇÃO MINUCIOSA - O conservador Antonio Sarasá conta que metade dos azulejos estava comprometida

 

ACERVO

 

"O museu republicano é o único lugar da região que tem a guarda de documentação preciosa. Aqui estão, por exemplo, os arquivos pessoais dos ex-presidentes Prudente de Moraes e Washington Luís", frisa a historiadora Anicleide Zequini, que trabalha ali e é uma das curadoras da exposição de reabertura, intitulada De Casa à Museu: A Formação do Museu Republicano (1923-1946).

 

A mostra, que conta a história da formação do museu, sob a gestão de seu primeiro diretor, o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay, procura desmistificar algumas lendas surgidas sobre o espaço, deixando claro que sua construção atendia a um projeto político de criação de um memorial republicano. "É claro que essa mobília não é a mesma que existia na época da convenção", exemplifica Anicleide. "Foi comprada na década de 20, para a recriação de um espaço de época. Mas isso não diminui sua importância." Outra história muito ouvida por ali é que o jardim que fica nos fundos do museu teria sido um cemitério. O que, segundo a historiadora, não é verdade.

 

O ponto alto da restauração é, sem dúvida, o trabalho que vem sendo feito para recuperar os cerca de 3 mil azulejos que decoram dois cômodos do casarão. Instalados na década de 40 e pintados à mão, eles se encontravam bastante deteriorados. "Fizemos um levantamento e constatamos que 80% deles estavam se soltando. E mais de 50% apresentavam algum processo de defeito, de fungos a fissuras", conta o restaurador Antonio Luís Sarasá, da empresa responsável pela recuperação das peças.

 

Esse trabalho, iniciado há quatro meses, deve ficar pronto até o fim deste semestre. Com o museu reaberto, o público poderá acompanhar a delicada e cuidadosa recolocação das peças. "Se não fizéssemos essa intervenção, eles certamente começariam a cair", diz Sarasá. Não foram poucas as dificuldades encontradas ao longo do processo. "Até a argamassa utilizada precisava ser compatível com a taipa das paredes", enumera.

 

A reabertura do Museu Republicano da Convenção de Itu (Rua Barão de Itaim, 67; 11-4023-0240; grátis; terça a domingo, a partir de amanhã, das 10h às 16h) acontece em data especial para a histórica cidade interiorana. Hoje, Itu celebra seu 400º aniversário.

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