Museu expõe obra religiosa da modernista Anita Malfatti

Expoente da vanguarda, pintora também criou arte sacra expressiva, mas pouco conhecida

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Anita Malfatti, estopim do modernismo no País, artista de pinceladas violentas, com influência nítida do expressionismo alemão. Essa definição, trazida por livros de História da Arte, refere-se à Anita vanguardista do início da carreira, uma das líderes do grupo organizador da Semana de Arte Moderna de 1922. Em meio a tanta inovação, porém, a artista resguardou um estilo que permeou toda a sua obra - trata-se da Anita religiosa, apaixonada por igrejas, capelas, anjos e santos. Uma Anita que criou, ao longo da carreira, mais de cem quadros de arte sacra, que acabaram esquecidos diante da intensidade de seus primeiros trabalhos.Para revelar essa arte escondida, o Museu de Arte Sacra de São Paulo, como parte das comemorações para o aniversário da cidade, inaugura amanhã a exposição A Arte Sacra de Anita Malfatti, que fica à mostra até 31 de maio. Em 23 quadros, expostos pela primeira vez em conjunto, os sentimentos de uma artista que não podia ver uma igreja sem parar para contemplá-la. "São quadros de todos os momentos da carreira, de 1920 até o final dos anos 1950, o que mostra a importância dessa temática em sua obra", explica a curadora da exposição, a artista plástica Di Bonetti. Entre os quadros está São Paulo Apóstolo, pintado em 1954, para o quarto centenário da cidade. Trata-se, como explica a curadora, da maior homenagem da artista à cidade. Isso porque o apóstolo São Paulo de Anita - com cabelos dos negros, olhos do europeu e nariz do índio - representa toda a mistura de raças existente aqui. "As mãos e os lábios, delicados e femininos, representam a fertilidade, as mães da cidade. E os ombros, largos, são a imponência de um povo trabalhador."Também estarão lá obras como A Escada de Jacó e Seresta na Lateral da Igreja, da década de 1950, que mostram a suavidade desenvolvida pela artista a partir de 1928, quando voltou de estudos em Paris. "Ela deixa para trás o polêmico início de carreira, a violência nas pinceladas, e pinta somente o que sentia, livre de movimentos", afirma Di Bonetti. As obras expostas retratam também passagens bíblicas e festas religiosas. "O público não poderia ficar privado dessas obras." Amanhã, a visitação ao museu será gratuita, das 11 às 19 horas. Nos outros dias, a entrada custa R$ 4, ouR$ 2 para estudantes.ACERVOFechado desde 11 de janeiro para reorganização do acervo, além da exposição da arte sacra de Anita, o museu reabre com novas peças. Aos 4 mil artigos do acervo, foram adicionadas outras 200 peças, a maior parte doada pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns. "São paramentos litúrgicos recebidos ao longo de uma vida sacerdotal", diz a diretora do museu, Mari Marino. "Utensílios que terão ainda mais valor no futuro."

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