Músico do O Rappa é baleado no Rio

Um ano e nove meses depois que o baterista Marcelo Yuka, da banda O Rappa, ficou paraplégico após ser baleado por bandidos, o percussionista do grupo, Paulo Sérgio Santos Dias, o Paulo Negueba, de 21 anos, foi ferido a tiros na noite de sexta-feira. Segundo o holandês Nanko van Buuren, diretor da ONG Íbis, que coordena o Afroreggae, projeto social que atua na Favela de Vigário Geral, onde o músico mora, Negueba tem certeza de que os dois tiros que o atingiram foram disparados por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM, que realizava uma incursão no local. Em nota oficial, a PM afirma que baleou apenas um traficante.Identificado como Joel de Jesus, segundo a PM ele disparava tiros de fuzil contra os policiais e foi morto. Outras duas pessoas, porém, ficaram feridas: Rogério Rodrigues dos Santos e Élcio Pereira do Nascimento. Yuka foi baleado em novembro de 2000, ao tentar evitar um assalto, na Tijuca, na zona norte da capital. Negueba foi alvejado quando seguia para casa com uma amiga, para tomar um banho e ir para um show em Queimados, cidade na Baixada Fluminense.De acordo com o relato de Negueba a Buuren, um veículo preto do Bope parou diante do carro de Negueba, e policiais saíram atirando. A mesma versão foi apresentada à Agência Estado pelo empresário do grupo, Alexandre Santos. Segundo ele, testemunhas afirmam que os tiros foram disparados de dentro do carro blindado do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM.Atingido no tornozelo direito e nas costas, Negueba foi operado pelas equipes cardiovascular e de ortopedia do Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Segundo um médico, ele estava lúcido. Um dos tiros causou fratura na tíbia direita e rompimento de vasos. Segundo o empresário da banda, três pinos foram implantados no percussionista. Buuren contou que a cirurgia foi bem-sucedida e que os dois tiros que ele levou nas costas não causaram danos graves. Em boletim, os médicos informaram que tiveram de reconstruir o osso e o vaso que estourou. Eles disseram não saber se haverá seqüelas. À tarde, Negueba será transferido para o hospital Copa D, em Copacabana, zona Sul.Nota oficialA Polícia Militar divulgou uma nota sobre o caso afirmando que o Bope foi acionado após denúncia de que traficantes de Vigário Geral se preparavam para uma ação em represália à morte dos traficantes Ricardo Vitor dos Santos, o Cuco, e Maurício de Lima Matias, o Boizinho, integrante da quadrilha de Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, e um dos acusados pela morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, baleados na quinta-feira em confronto com a Polícia Civil. O tráfico em Vigário Geral é dominado pela quadrilha de Elias Maluco.Diz a nota: "A equipe do Bope, com o apoio do carro blindado, entrou na favela sem que nenhum disparo de arma de fogo fosse feito. Em seguida, os marginais desligaram as luzes da comunidade utilizando-se de um meio até agora desconhecido, uma vez que os transformadores não foram atingidos. Houve um confronto com aqueles marginais, que se encontravam próximo a uma boca de fumo, onde foi baleado um dos elementos, que estava utilizando um fuzil AR-15 e que disparou contra a equipe do Bope, ficando o carro blindado com as marcas de disparo."O empresário Alexandre Santos contou que Negueba está na banda há um ano, mas há cerca de cinco anos participava de apresentações do Rappa. Ele entrou em contato com a banda freqüentando oficinas de música no projeto Afroreggae."O que eu posso comentar é o seguinte: eu não acho que o raio caiu no mesmo lugar duas vezes. O Marcelo (Yuka) tomou oito tiros de bandidos e o Negueba, dois da polícia. Nós estamos no meio de uma guerra, na Faixa de Gaza. De um lado ou de outro você está sujeito a sofrer esse tipo de violência. Esse é o País que os nossos governantes deixaram para nós", afirmou Santos, que fez questão de ressaltar que baseava sua opinião nos relatos de testemunhas do tiroteio. "O que a gente quer é paz", acrescentou.YukaEm entrevista por telefone à TV Globo, Yuka contou que conversou com Negueba na noite de sexta-feira, momentos antes de o amigo sofrer a cirurgia no pé. De acordo com o baterista e letrista da banda O Rappa, o percussionista estava muito assustado e foi alvejado ao tentar explicar que era um "trabalhador". "Ele disse que levou o tiro no pé quando saía do carro para dizer que não era um bandido", disse Yuka. "Vivemos hoje uma luta pela cidadania. Isso assusta muito porque você precisa sempre provar que não deve nada a ninguém." Yuka disse que não conversou com Negueba sobre quem seriam os autores dos disparos, mas confirmou que testemunhas apontam policiais militares como responsáveis.A mãe do percussionista, Janete Dias dos Santos, esteve no hospital. "É todo dia, ninguém tem sossego mais não. Fiquei muito arrasada, moro a minha vida inteira na favela e nunca tinha acontecido isso com a gente. Nossa cidade não tem Justiça, a única Justiça é Deus", desabafou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.