Na AACD, acidente já é maior causa de lesão medular

Em um dos corredores da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), Elaine Pedroso da Cunha, de 26 anos, caminha vagarosamente, com a ajuda de um andador. Recuperando-se de um acidente no Rodoanel, há um ano e dois meses, ela faz parte de um grupo que tem crescido nos últimos anos: o de pessoas com lesões na medula causadas por acidentes de trânsito.O reflexo desse aumento já pode ser notado na Clínica de Lesão Medular da AACD. Em 2007, após quatro anos, as lesões causadas por acidentes de trânsito voltaram ao topo do ranking dos atendimentos na clínica. As lesões medulares derivadas de ferimentos com armas de fogo, antes a principal causa, caíram para a segunda posição.Dos 216 pacientes atendidos em 2007, 84 sofreram a lesão em um acidente de trânsito - 38,9% do total. Os feridos por armas de fogo somaram 69, ou 31,9%. Esses números indicam uma volta a índices parecidos com os da década de 1980 até meados da década de 90, quando a maioria dos pacientes com lesões medulares atendidos na AACD era vítima do trânsito. Depois de uma breve melhora, novamente o trânsito é o vilão.De acordo com os números da instituição, todas as lesões por causa externa subiram. "Lesões medulares, amputações e traumatismos cranianos já passaram as doenças congênitas", diz diretor-clínico da AACD, Antônio Carlos Fernandes. "Tivemos de mudar a grade de atendimento da instituição."Entre os acidentes, os que acarretam maiores lesões envolvem motocicletas. "O grande vilão do momento é a moto", afirma Fernandes. Até julho do ano passado, esses casos somaram 42% do total. Em segundo lugar vinham os automóveis, com 40%, depois atropelamentos (6,7%) e bicicletas (4,4%). Os outros casos (ônibus, caminhão e trens), juntos, somaram 6,6% do total.Estima-se que 30% das vítimas de acidentes no trânsito fiquem com alguma lesão motora. "Mas não existem estatísticas oficiais sobre o número de pessoas que convivem com seqüelas", reclama Fernandes.Ou seja, o caso de Elaine não está em nenhuma estatística governamental. Ela sofreu um lesão na primeira vértebra da coluna lombar, sofrida quando voltava de carona para casa após um churrasco, com mais quatro pessoas. Ela e o motorista, que chegou a ficar em coma, tiveram os ferimentos mais graves. Elaine ficou quase um mês internada. "Alguns médicos disseram que eu não voltaria mais a andar", lembra.Elaine só começou a recuperar os movimentos em casa. Atualmente faz até 40 minutos de caminhada com o andador, em pé, sozinha, e há três meses treina remo na raia olímpica da USP. Está namorando e pretende retomar a faculdade de Direito. "Não sei se vou estar 100% recuperada, mas já me vejo daqui a dez anos casada, talvez com filhos."

Jones Rossi, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2008 | 00h00

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