Na Argentina, Dilma reforça estilo contido e evita polêmicas

Na primeira viagem internacional, acesso da imprensa é controlado e presidente só responde a 3 perguntas no aeroporto

Ariel Palacios e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2011 | 00h00

A permanência da presidente Dilma Rousseff por 6h30 na Argentina, em sua primeira viagem internacional, foi marcada pelo total controle e cálculo de gestos e palavras. Ela foi cautelosa até na parte "emocional" da agenda ao lado da colega Cristina Kirchner. Acenou de forma contida a populares na sacada da Casa Rosada, de frente para a Praça de Maio, conhecida pelos discursos que ali fazia o ex-presidente Juan Domingo Perón e pela performance da cantora Madonna no filme Evita.

Numa rápida conversa com jornalistas, já no Aeroporto Jorge Newbery, no retorno para o Brasil, Dilma propôs responder duas perguntas e acabou aceitando responder uma terceira, sobre temas internacionais. Ela evitou, assim, questões sobre a agenda política brasileira - a briga do PMDB pelo controle de Furnas, o loteamento de cargos no segundo escalão ou o déficit na Previdência.

O estilo calculado de Dilma foi beneficiado pela postura de Cristina de evitar entrevistas. A política de comunicação da presidente argentina supervaloriza as imagens e declarações sem interrupções. Durante um encontro com as Mães e Avós da Praça de Maio, na Casa Rosada, Cristina levou Dilma até a sacada. Fotógrafos e cinegrafistas de veículos de comunicação dos dois países estavam dentro da sala.

Na praça e de frente para elas, só estavam fotógrafos da presidência argentina, já previamente informados de que Cristina iria levar a colega brasileira para a sacada. Dilma recebeu um lenço branco das mães que tiveram filhos e netos mortos e sequestrados durante o regime militar argentino (1976-1983), mas não o colocou na cabeça.

Ao final de uma declaração conjunta ao lado de Cristina, Dilma segurou o choro, mas deixou escapar a emoção ao defender a parceria cultural e econômica entre Brasil e Argentina. Ela disse que os dois países devem fortalecer parcerias em educação, cultura e comércio. "Este é um momento especial para dois grandes países de sociedades desenvolvidas que foram capazes de eleger duas mulheres presidentes. Este é o primeiro de muitos encontros, e como é o primeiro, estamos um pouco emocionadas."

A presidente brasileira observou que o Salão dos Pensadores Argentinos em que estavam dando a declaração, era dedicado a escritores e cientistas. "Acho uma simbiose estar aqui. Este é o sentimento da nossa cooperação", afirmou Dilma.

A presidente fez uma homenagem ao ex-presidente argentino Néstor Kirchner, marido de Cristina, morto em outubro. "Quero homenagear o presidente Néstor Kirchner, não só como presidente da Argentina, mas como construtor da União de Nações Sul-Americanas (Unasul)", disse. Dilma afirmou que a parceria entre Brasília e Buenos Aires pode beneficiar toda a América Latina. "Eu considero que Argentina e Brasil são cruciais para que possamos transformar o século 21 no século da América Latina."

Dilma disse que os dois países devem ter um papel estratégico no desenvolvimento econômico da região, levando em conta a preservação do meio ambiente e a soberania dos países. "Os nossos países podem e vão dar passos decisivos na construção de um mundo melhor para os nossos povos e para os povos latino-americanos", afirmou. Antes de Dilma falar, Cristina citou o marido e o ex-presidente Lula que, segundo ela, relançaram o Mercosul e melhoraram a relação bilateral. Cristina disse que a "presidenta Rousseff" teve consciência histórica ao escolher a Argentina como destino da primeira viagem internacional.

A agenda das presidentes previa uma reunião a sós de meia hora. No entanto, a química entre as duas alterou o cronograma original, prolongando a reunião por uma hora e meia além do previsto.

Acordos. Dilma e Cristina assinaram acordos na área de bio-energia, incluindo biocombustíveis, na massificação do acesso à internet em banda larga e a construção de uma ponte internacional sobre o Rio Peperi-Guaçu entre a cidade argentina de San Pedro e a brasileira Paraíso.

As duas presidentes assinaram acordos de integração bilateral, entre os quais o projeto de criação conjunta de um reator nuclear multipropósito para pesquisa científica.

Dilma e Cristina também fecharam acordos sobre o intercâmbio de energia elétrica, programas especiais de moradias populares e a criação de uma comissão para venda de produtos para outros países de forma conjunta. Além disso, decidiram assinar uma declaração conjunta para a promoção da igualdade de gênero e a proteção dos direitos das mulheres.

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