Pablo PereiraEstadão
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Sobrevivente de naufrágio viajava a Salvador para conhecer filho recém-nascido

'Estou emocionado por ter escapado’, relatou Marcelo Moreira, de 49 anos. Até agora, 18 pessoas morreram

Pablo Pereira, Enviado especial

25 Agosto 2017 | 22h54
Atualizado 26 Agosto 2017 | 23h11

SALVADOR - Um dia após o acidente que matou 18 pessoas durante a travessia entre Mar Grande e Salvador, a Igreja do Largo de Vera Cruz, de onde saiu a lancha Cavalo Marinho 1, amanheceu cercada de moradores. Entre eles estava Marcelo Moreira, de 49 anos, que sobreviveu à tragédia. Moreira viajava à capital baiana para ver pela primeira vez o filho que acabara de nascer. “Estou emocionado por ter escapado e poder conhecer meu filho”, contou.

O sobrevivente é um dos moradores que passou a ter de usar o ferry boat – um catamarã com capacidade para 800 pessoas que transporta veículos –, única alternativa de deslocamento nesta sexta-feira pelas águas. Após o acidente, a circulação das linhas regulares entre Vera Cruz e Salvador foi suspensa por três dias, por luto.

Moreira se lembrava dos momentos difíceis que havia vivido no dia anterior. “Foi uma aflição. Consegui nadar e me agarrar a um bote. Havia na água uma menina, que ainda estava viva, e eu consegui puxá-la.” Ele também avistou uma mulher, agarrada a um bote, que gritava que não aguentava mais de dor. “Depois, ela afundou.”

Outro sobrevivente era o agente de saúde Dirceu Souza, de 43 anos, pai de dois filhos. Ele recorda que estava perto da borda da lancha quando a embarcação foi atingida pela primeira onda. “Falei para o meu amigo que ia virar. Foi quando a segunda onda bateu e nos caímos na água.”

Morador de Vera Cruz, Souza recorda que foi puxado pelas águas para baixo do barco e ficou alguns segundos submerso até encontrar forças para subir à tona. Durante a desesperada luta para sobreviver, ele machucou a perna com materiais que estavam na lancha. Para ele, o acidente foi uma “fatalidade”.

Chuva e vento. A lancha Cavalo Marinho 1 virou por volta das 6h30 desta quinta, pouco após iniciar o trajeto, enquanto chovia e ventava forte na região. Segundo informações oficiais, 18 morreram e 89 foram resgatadas. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia informou nesta sexta que as vítimas já foram identificadas: 13 eram mulheres, 2, homens e 3, crianças. Uma delas é o bebê Davi Gabriel Monteiro, de 6 meses, que morreu após duas horas de tentativa de reanimação.

Um dos corpos identificados foi do agente penitenciário Tiago Henrique Muniz Barreto, de 35 anos. Seu pai, o coronel do Exército Eduardo Antonio Muniz Barreto, contou que ficou sabendo do acidente às 8 horas e da morte do filho, às 11 horas. “Perdi meu filho. Ele teve traumatismo craniano”, lamentou o militar durante o velório, realizado no Cemitério do Campo Santo. Tiago deixou dois filhos.

Eduardo espera que as autoridades apurem com rigor as causas da tragédia. “É preciso agora ter paciência e aguardar as conclusões da investigação.”

Para um amigo da família, o administrador Roberto Borba Moreira, o que aconteceu a cerca de 200 metros da praia de Mar Grande, bem diante da Igreja, “foi um crime”. No velório, ele questionava a autorização para que a lancha operasse. 

“Essa lancha tem 60 anos. Como pode um barco desses continuar operando com aquele mar? Como pode um barco não suportar que as pessoas passem todas para o mesmo lado em uma emergência? É uma tragédia que podia ter sido evitada.”

Segundo Moreira, Tiago ia a Salvador para ver um apartamento para alugar. “Nós íamos juntos, mas acabei ficando na cama. Parecia que alguma coisa estava me prendendo em casa”, contou o administrador, que vive em Vera Cruz, mas tem imóveis em Salvador.

Suspensas na noite de quinta, as buscas foram retomadas na manhã desta sexta. Pescadores avaliavam que restos da embarcação e eventuais vítimas podem ter sido arrastadas pelas correntes para outras praias. Na maré alta, era possível avistar os restos do barco encalhado nos recifes a dois quilômetros de onde emborcou.

 

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