Na bagagem, muita solidariedade

Turistas estrangeiros ajudam a construir casas no Guarujá

Rejane Lima, GUARUJÁ, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

Pela primeira vez na América do Sul, os professores aposentados Randy e Marietta Qunby, de 62 anos, já conhecem Europa, África, Japão, Índia e China. Porém, depois da aposentadoria, decidiram realizar uma viagem que vai além do turismo convencional. O casal da Pensilvânia integra um grupo de 23 americanos que está no Brasil construindo moradias populares no Guarujá, na Baixada Santista.Desenvolvido pela organização não-governamental internacional Hábitat para a Humanidade, o programa chama-se Global Village e, no Guarujá, foi executado por meio de uma parceria da Hábitat com a indústria química Dow Brasil e a prefeitura.Os trabalhos começaram na segunda-feira e acontecem durante cinco dias, das 8h30 às 16h30. Amanhã de manhã, uma cerimônia ecumênica encerra o projeto, e os americanos têm o resto do dia e o domingo para se divertirem. As obras estão na segunda fase, e as 32 moradias no bairro do Pae Cará, em Vicente de Carvalho, deverão ficar prontas apenas em setembro, após outros mutirões."Essa é uma maneira de se doar, de ajudar as pessoas, com um pequeno sacrifício. Estamos gostando de estar aqui, de conhecer os brasileiros, que são muito amigáveis", disse Qunby, que gostou de ver o carro funerário de Santos Dumont exposto em uma praça e espantou-se com a precariedade das moradias no mangue.De acordo com a diretora de Regularização Fundiária da prefeitura do Guarujá, Cecília Maria da Silva, as moradias fazem parte do programa de canalização do Rio Acaraú, que prevê a retirada de 120 famílias das margens do rio. "Essas 32 casas vão para famílias que já estavam cadastradas. A seleção considerou critérios como terceira idade e portadores de algum tipo de deficiência, redução visual ou locomotora", explica.Com 42 metros quadrados, as casas têm condições de conforto e acessibilidade. São construídas com tijolos modulares, que não vão ao forno, em processo limpo e organizado, e por isso são consideradas ecologicamente corretas. O valor total da obra é de R$ 900 mil. A prefeitura cedeu o terreno e parte da logística para a construção; a Dow custeou 40% do valor, e o restante foi subsidiado pela Caixa Econômica Federal para a ONG, a fundo perdido. Os futuros moradores vão pagar cerca de R$ 40 mensais por seis anos.Fundada nos EUA em 1976, a Hábitat espalhou-se por 93 países. No Brasil, existe há 21 anos e já realizou trabalhos em sete Estados, em sua maioria com a ajuda de estrangeiros. "Já vieram canadenses, japoneses e gente de Cingapura trabalhar em nossos projetos", afirma Elvis Castilho, responsável pelas relações institucionais da ONG no País. No entanto, ele admite que a maior parte dos voluntários é de americanos. "A ONG é muito forte nos Estados Unidos. Há muitas personalidades que incentivam nosso trabalho por lá", diz, citando o ex-presidente Jimmy Carter, o ator Brad Pitt e o cantor Bon Jovi.Moradora de Ohio, a engenheira hidráulica Marty Wendel, de 42 anos, participa pela primeira vez de um projeto da ONG fora dos Estados Unidos. Apesar de sofrer com o calor de 35 graus do litoral paulista e lembrar que deixou a neve de Cleveland, ela afirma que o canteiro de obras nem parece trabalho. "Ter um marido é mais duro que construir uma casa", brinca a engenheira, quando questionada sobre seu estado civil.Solteira, Marty descobriu o projeto pela internet e, quando soube da oportunidade de trabalhar como voluntária no Brasil, logo se animou. Ela afirma que tinha curiosidade e simpatia pelo País. "Também me senti segura em vir para cá."Ela elogiou a beleza e a limpeza das praias do Guarujá e disse que, da próxima vez, quer estender a viagem por mais uma semana. "Tenho vontade de ir para o Amazonas, ver o rio e os pássaros." Marty pagou US$ 800 pela passagem aérea e mais US$ 1.600 para a ONG, que providenciou hotel e alimentação em uma igreja metodista durante os sete dias. Assim como ela, o peruano naturalizado americano Eduardo Ramirez também não considera o custo da viagem alto. Ele não revela a idade, mas afirma que mora na Califórnia há 27 anos. "Viajar para isso é melhor do que estar passeando. Na hora que eu for fazer o balanço da minha vida, verei que valeu a pena. Graças a Deus tenho condições de dividir as bênçãos da minha vida com as pessoas", completa.

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