Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Na balada, beber e dirigir ainda é a rotina

Quem assume o risco ao volante acredita ser ‘imune’ a acidentes e blitze da polícia

Paulo Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

29 Outubro 2011 | 21h47

São 5 horas de quinta-feira quando o universitário Caio Mattar, de 22 anos, chega à balada Woods, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, e comenta que está em uma noite de "muita sorte". "Fui parado por dois comandos, mas hoje não tomei nada. Saí de casa só para pegar uns amigos aqui, no fim da noite. Eu sempre bebo e a polícia nunca me parou, acredita?", diz, com uma expressão que mistura surpresa e infantilidade.

 

Duas noites circulando por casas noturnas na Vila Olímpia, Itaim, Barra Funda e Jardins foram suficientes para verificar que grande parte dos baladeiros ainda dirige depois de beber, acreditando que, com eles, "não vai acontecer". "Velho, esses moleques que pegam os ‘cara’ (atropelam) são uns imbecis que não sabem o que estão fazendo. Você tem de ter consciência. Dirijo há mais de 15 anos, não deixo de beber na balada e nunca arranhei uma calota", diz o microempresário João Paulo Góes, de 35 anos, segurando seu drinque na calçada da Rua Quatá, onde fica a Woods. Na sequência, vai dirigir cerca de 10 km até Pinheiros, na zona oeste, onde mora.

 

A noite está cheia de motoristas alcoolizados que acreditam que os acidentes só podem acontecer com os "imbecis" - e isso, claro, não inclui eles mesmos. "Moro logo ali, virando a esquerda, é muito perto", diz o gerente de vendas Rogério Queiroz, de 30 anos, "quatro doses", para justificar a imprudência.

 

Precário. Taxistas, valets, barmen e até enfermeiros de ambulatórios improvisados nas baladas são unânimes em afirmar que o estado geral da maioria, à saída, é bastante precário. "Poucos pegam táxi. Uns entram no próprio carro, dão a partida, mas não chegam à esquina. Dormem. Então, alguém do valet vai, pega e os coloca no táxi. Só assim eles entram", diz o taxista Carlos Antônio Pinto, de 42 anos.

Se os funcionários dos estacionamentos vizinhos a essas baladas fossem policiais do comando disfarçados, pouquíssimos motoristas sairiam dirigindo. "Fica aqui meia horinha para você ver", propõe o manobrista Waldemar de Souza, de 40 anos.

 

Nem precisa tanto. É possível contar nos dedos os motoristas "conversáveis". "Não é lindo?", indaga o universitário Bruno Cecchinato, de 22 anos, apontando para seu Mercedes branco.

 

Com um copo de vodca com energético na mão, voz embargada, rindo à toa, Bruno é um caso emblemático. Filho de vereador, ele veio de Guarulhos dirigindo, já depois de um "esquenta", e diz que pretende voltar de carro. "Tenho de ir pra casa, velho", explica, acompanhado do empresário Guillermo Jorge, de 28.

 

No Villa Country, na Barra Funda, de música sertaneja, os frequentadores costumam estacionar o carro no supermercado Sonda, que fica ao lado. "Todos os meus amigos dirigem depois de beber. Cada um ‘fecha’ a sua garrafa de vodca", diz a esteticista Paula Parice, de 28 anos, sóbria em um Honda Fit. "Já teve playboy que arrancou a cancela na saída e foi embora", diz o segurança do estacionamento, César Pereira, de 50. "A câmera registrou, ele teve de pagar R$ 5 mil."

 

‘Zoada’. A reportagem agora está na Ballroom, nos Jardins, onde uma loura de vestido curto preto vasculha por longos 15 minutos a bolsa Chanel, atrás da carteira para pagar o valet. "Essa tá zoada", diz um dos porteiros.

 

Vai dirigir assim? "Sai fora, que a Fabi hoje não tá pra conversa", grita ela, entrando no jipe com duas amigas.

 

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