Na balada, drinque já vem com o remédio

Para médico, uso de medicamentos virou problema de saúde pública

O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Em baladas, jogos universitários e até mesmo micaretas, é possível encontrar um pouco de tudo. Adolescentes que tomam remédios prescritos para crianças hiperativas com o intuito de ficaram mais ligados, outros que misturam xarope para tosse com cerveja para ficarem bêbados mais rápido e mesmo quem abuse de remédios para mal de Parkinson em busca de alucinações típicas do LSD. É possível até já pedir o drinque com remédio moído em algumas festas de faculdade, principalmente nas de Medicina. "Tem muita gente que toma para estudar, para aumentar o rendimento e conseguir ficar horas lendo", diz uma estudante do último ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. "Nas festas, também dá para pedir a bebida ?batizada? já, com um pouco de anfetamina. É uma coisa até normal, ninguém acha que está se drogando de verdade." Para o médico Ronaldo Laranjeiras, diretor da Unidade de Drogas e Álcool da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso de medicamentos para fins recreativos já está virando problema de saúde pública. "De fato é mais sério do que aparece nos jornais", diz. "Hoje, não há psiquiatra que não trate de jovens com problemas de abuso de medicamentos vendidos nas farmácias." A professora Solange Nappo, médica da Unifesp e pesquisadora do Cebrid, aponta a facilidade na obtenção da droga e a sensação de segurança no uso dos medicamentos produzidos por grandes multinacionais como uma das principais razões do fenômeno. Segundo Solange, o ice, uma droga feita à base de meta-anfetamina, sintetizada a partir de produtos comprados em farmácias, que pode ser cheirada, injetada e fumada, é atualmente uma das drogas que mais cresce e assusta as autoridades americanas. "O boom começou há cerca de cinco anos e a moda não chegou ao Brasil. Mas é preciso ficar atento, já que outras drogas como crack e ecstasy demoraram cerca de dez anos até chegar por aqui."POLÍTICAO secretário Nacional Antidrogas, general Paulo de Miranda Uchôa, afirma que o governo tem ciência dessa realidade envolvendo o elevado consumo de medicamentos. Prova disso, ele diz, é que a política anti-drogas passou a ser chamada de política sobre drogas. "Estamos tomando medidas para aumentar o controle sobre as prescrições e a venda desses medicamentos nas farmácias. Mas o mais importante são os municípios ativarem conselhos antidrogas para alertar os jovens sobre os riscos que eles correm". BRUNO PAES MANSO e RODRIGO BRANCATELLIFRASESRonaldo LaranjeirasPsiquiatra"Hoje, não há psiquiatra que não trate de jovens com problemas de abuso de medicamentos vendidos nas farmácias"Solange Nappo Pesquisadora do Cebrid"O boom (do ice) começou há cerca de cinco anos e a moda não chegou ao Brasil. Mas é preciso ficar atento, já que outras drogas como crack e ecstasy demoraram cerca de dez anos"

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