Na batida, velocidade era de 175 km/h

As primeiras informações técnicas da caixa-preta de dados indicam que o Airbus A320 estava a 175 quilômetros por hora quando bateu e explodiu no prédio da TAM Express na Avenida Washington Luís no último dia 17. De acordo com os registros da caixa-preta, a aeronave aterrissou em velocidade padrão - entre 220 e 240 km/h. Especialistas ouvidos pelo Estado observam que, apesar de atravessar quase 2 mil metros de pista, ter batido em uma barreira e mudado a trajetória, houve redução pequena da velocidade final. Isso leva a três hipóteses: o avião não conseguiu frear; o avião teve frenagem insuficiente; o avião passou por um processo de aceleração na pista (por motivos ainda ignorados). Um dos controladores de pista que testemunhou o acidente afirma que o avião ganhou velocidade na pista. Em Brasília, o chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Jorge Kersul Filho, confirmou as informações sobre a velocidade do avião. O coronel Fernando Camargo, também do Cenipa, que participa da extração de dados nos Estados Unidos, deu explicações sobre o caso aos deputados Marco Maia (PT-RS) e Efraim Filho (DEM-PB). Os políticos acompanham a extração de dados das caixas-pretas pelo técnicos do Conselho Nacional de Segurança dos Transportes (NTSB, na sigla em inglês). A investigação ainda conta com representantes da TAM, da Airbus e do fabricante das turbinas, Pratt & Whitney. "A caixa-preta mostra que o avião pousou com velocidade maior que a registrada no momento da colisão com o prédio - e ele bateu de lado, não de frente, isto é, foi deslizando no final da pista", explicou Efraim. Segundo os deputados, esse foi o único parâmetro técnico do gravador de dados a que tiveram acesso. A caixa de voz começou ontem a ser transcrita para o inglês, uma das línguas oficiais da Organização Internacional da Aviação Civil (Icao, na sigla em inglês). Mas os deputados federais afirmaram que não tiveram acesso a trechos da transcrição dos 30 minutos de conversas na cabine. Para o engenheiro Eno Siewerdt, especialista em sistemas de aviação, ainda é prematuro dizer se o Airbus não conseguiu frear ou se voltou a acelerar ao tocar o solo. "É mais ou menos como um navio. Se ele não começa a frear bem antes, é muito difícil que consiga parar", comparou. O engenheiro lembra, no entanto, que as imagens captadas pelas câmeras da Infraero sugerem que o piloto cruzou a pista com o reverso (freio aerodinâmico) esquerdo funcionando. "Se, isso ocorreu, não faz sentido o avião ter passado tão rápido, o que pode indicar que estava acelerando. O mistério agora é saber se o comandante acionou as turbinas ou se elas ganharam potência involuntariamente." O oficial da reserva Luiz Alberto Bohrer, especialista em segurança de vôo, concorda, mas admite a hipótese de "uma aquaplanagem por um longo período". "Apenas o atrito do avião com o solo, com o ar e o choque com a mureta teriam sido significativos para fazer essa velocidade cair mais do que isso (175 km/h)." Simulação feita pelo professor de Física da USP Cláudio Furukawa mostra que o avião diminuiria de velocidade naturalmente apenas com o atrito dos pneus no solo e a resistência do ar. "Se houvesse só a resistência do ar, a aeronave reduziria de 240 km/h para 200 km/h no final da pista", diz. Segundo um experiente piloto, em uma aterrissagem normal, um Airbus A320 com o speedbreak (outro freio aerodinâmico) armado e o procedimento de frenagem normal, a velocidade cairia para cerca de 60km/h até o final do segundo terço da pista. O coronel Camargo afirmou que os trabalhos nos Estados Unidos devem estar concluídos amanhã ou sexta-feira. "Já extraímos 100% dos dados. Estamos terminando a validação, para determinar a confiabilidade das informações." Foram escolhidos entre 50 e 60 dos 580 parâmetros para análise detalhada. Após confirmação de que os dados estão corretos, é feita a confrontação das informações. CONFIDENCIALIDADE Camargo quer garantir confidencialidade de dados e depoimentos de testemunhas durante as investigações. Ele pediu aos deputados que proponham legislação para garantir sigilo. Hoje, segundo o coronel, muitas testemunhas de acidentes ficam intimidadas porque podem ser forçadas a dar declarações públicas, intimadas pelo Ministério Público ou a polícia. Questionado se o avião arremeteu após o pouso, o deputado Maia desconversou. "Essa é uma questão controversa, precisarão aprofundar as informações sobre a velocidade para determinar se houve ou não tentativa de arremeter." Segundo o parlamentar, a Convenção de Chicago determina sigilo sobre trechos da caixa de voz até que se conclua a investigação.

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2025 | 00h00

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