Na cadeia de segurança máxima, Abadía teve contato com presos

Comunicação é proibida no Presídio Federal para impedir que se armem ações criminosas

Bruno Tavares e João Naves de Oliveira, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2008 | 00h00

Os presos João Paulo Barbosa e José Reinaldo Girotti, apontados como integrantes do plano de seqüestro e extorsão de autoridades desvendado na segunda-feira pela Operação X da Polícia Federal, afirmaram em depoimento que mantiveram contato com o traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía, o Chupeta, dentro do Presídio Federal de Campo Grande (MS). As normas de disciplina da unidade, no entanto, vetam a convivência entre detentos considerados de alta periculosidade e/ou líderes de facções criminosas, mesmo que apenas durante os banhos de sol. "Desconheço essa informação", disse ontem o diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Wilson Damásio. "A orientação é para que (os presos líderes de facção ou de alta periculosidade) nunca fiquem juntos, mas pode ser que em algum momento isso tenha ocorrido." Fontes ouvidas pelo Estado cogitam ainda a possibilidade de os três detentos terem sido colocados juntos propositalmente, a fim de que o setor de inteligência da unidade reunisse mais dados sobre o plano supostamente arquitetado por Abadía e pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Inaugurado em dezembro de 2006, o Presídio Federal de Campo Grande foi projetado para isolar os presos em alas autônomas. São quatro divisões com capacidade para 52 detentos. Metade das celas fica no térreo e o restante, no 1º andar. Cabe a uma comissão técnica formada pelo diretor da unidade, médicos, psicólogos e assistentes sociais estabelecer o grau de periculosidade dos detentos e definir em qual das alas eles ficarão recolhidos. Além dos quatro internos do presídio federal, foram presos pela Operação X Ivana Pereira de Sá (ex-mulher de Beira-Mar), Leandro Oliveira dos Santos e Leonice de Oliveira (ambos presos em Nova Andradina, MS, parentes de João Paulo Barbosa) e o advogado Vladimir Búlgaro, defensor de Girotti. Os quatro são acusados de atuarem como mensageiros de Beira-Mar, Abadía, Barbosa e Girotti, e permanecem detidos na Superintendência da PF em Campo Grande. O grupo foi interrogado durante a segunda-feira e a madrugada de terça-feira, mas negou as acusações, se reservando o direito de falar apenas em juízo. No relatório encaminhado à Justiça, os federais informaram que a suposta quadrilha se comunicava por mímica no parlatório do presídio, para evitar que tivessem suas conversas monitoradas pelas agentes penitenciários. A PF afirma ainda que um dos alvos dos criminosos era o filho de uma autoridade do Poder Executivo federal. A PF não confirma nenhuma informação, alegando sigilo judicial. A decisão foi adotada para preservar a integridade física de supostos alvos do bando. Mas uma lista com nomes foi anexada ao inquérito, aberto anteontem aos advogados de defesa. A apuração dos nomes foi feita durante os últimos cinco meses, por meio de recursos também mantidos em segredo, autorizados "por Brasília", conforme afirma um informante que estaria na mira da quadrilha.

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