''Na cidade há lugares imexíveis. Mas comigo não tinha acordo''

Ex-diretor se decepcionou com a ingerência de políticos nas decisões do Psiu de fechar igrejas, bares e até teatros

Luísa Alcalde, O Estadao de S.Paulo

07 de maio de 2009 | 00h00

O coronel reformado Fernando Coscioni, de 52 anos, trabalhou mais de 30 anos na Polícia Militar e ficou somente três meses na Prefeitura, na gestão Gilberto Kassab (DEM). É o primeiro oficial dos cerca de 40 que assumiram cargos na administração municipal este ano a ser exonerado. Até quinta-feira, ele estava à frente do Programa de Silêncio Urbano (Psiu). Diz que sua primeira experiência na política o deixou decepcionado e alega que as tentativas de interferência política eram constantes. "Acontecia depois de multarmos ou fecharmos determinados estabelecimentos porque a lei é dura e a multa, alta. Ocorriam telefonemas de políticos, visitas de chefes de gabinete..."O sr. ficou decepcionado com a experiência no governo?Bastante. De que forma acreditava poder colaborar com a cidade?Imaginei ter sido chamado a colaborar porque a vida inteira como policial sempre tive contato com a sociedade por intermédio dos Conselhos de Segurança, integrados por líderes comunitários e policiais civis e militares. O contato com anseios e necessidades da população é muito próximo. Quem o indicou?Os coronéis Salgado, antigo chefe de gabinete do ex-comandante-geral, e Segala, antigo chefe do Comando do Policiamento da Capital. O comando da PM me indicou e fui fazer entrevista com o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo.Ele fez algum pedido?Que disciplinasse as atividades do Psiu. Quando cheguei aquilo estava largado. Primeiramente, valorizei as pessoas que trabalham lá. Nesses três meses aplicamos mais de R$ 5 milhões em multas, mais de 300 estabelecimentos foram multados, mais de 50 lacrados e mais de 40 emparedados. Quando cheguei havia 15 mil denúncias registradas no Serviço de Atendimento do Consumidor do Psiu para serem atendidas. Baixamos para 6 mil queixas.O senhor sofreu muita ingerência política à frente do Psiu?Acontecia depois de multarmos ou fecharmos determinados estabelecimentos porque a lei é dura e a multa, alta, de R$ 28 mil. Então, depois dessas ações, ocorriam telefonemas de políticos, visitas de chefes de gabinete...O que pediam?Que as casas fossem reabertas com agilidade. Mas a lei não contempla pedidos de políticos. E o que eu fazia era cumpri-la estritamente. E não fiz nada sozinho. Tive apoio dos funcionários. O senhor acredita que tenha sido exonerado porque administrou o Psiu com pulso firme?Sim. Não fui exonerado, mas seria se não saísse. Ninguém me disse o motivo. Acredito ter sido meu comprometimento com o trabalho. Quando me apresentei ao secretário (Matarazzo), ele sabia do meu perfil, que eu não ia administrar ingerências políticas. Só aprendi isso quando estava lá.Incomodou muita gente?Sim. Na cidade há lugares ?imexíveis?. Mas comigo não tinha acordo. A lei é inflexível. Há exemplos de problemas?As igrejas em geral, bares da empresária Lilian Gonçalves, o Teatro do Parlapatões...E estabelecimentos de Pinheiros frequentados por pessoas importantes.A sua saída deveu-se à reabertura da Assembleia de Deus, que o senhor havia mandado fechar...Ela deveria continuar lacrada. Se fechei, não ia abrir. Para uma casa reabrir é preciso apresentar toda a documentação, laudo de acústica de firma especializada e segurança devidamente autorizada pela Polícia Federal, além de contrato de estacionamento.Passaram por cima de uma decisão do senhor, então?Passaram. Não tinha conhecimento de que a igreja seria reaberta. Por isso fui procurar o Ministério Público, que agora vai apurar a conduta dos funcionários da Prefeitura e essa irregularidade. Quem demitiu o senhor?Acredito que o secretário não tinha nem ciência ou não quis explicar. Não sei se foi por vontade própria ou a mando de alguém.

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