Na esteira da ''faxina'' de Dilma, oposição quer levar cinco ministros ao Congresso

Intenção é que titulares dos Transportes, Cidades, Agricultura, Minas e Energia e Desenvolvimento Agrário deem respostas a denúncias veiculadas na mídia nas últimas semanas; governo muda tática e concorda com depoimentos para evitar CPIs

Eduardo Bresciani / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2011 | 00h00

A oposição retoma os trabalhos no Congresso após o recesso com uma ofensiva contra cinco ministros citados direta ou indiretamente em denúncias de corrupção. Foram apresentados ontem pedidos de convocação de Paulo Sérgio Passos (Transportes), Wagner Rossi (Agricultura), Mário Negromonte (Cidades), Edison Lobão (Minas e Energia) e Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário).

O governo, que até então blindava as convocações de autoridades, está disposto a mudar de estratégia. O entendimento do Planalto é de que a presença dos ministros pode enfraquecer outras iniciativas da oposição, como a tentativa de instalar Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para apurar denúncias que envolvem ministérios da presidente Dilma Rousseff.

Diante da fila de ministros com explicação por fornecer, o líder tucano no Senado, Alvaro Dias (PR), disse haver a impressão de que há um "mar de lama" na Esplanada. A oposição tenta ainda instalar uma CPI dos Transportes e diz precisar de só mais quatro assinaturas.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que serão aprovados requerimentos nas comissões desde que tenham a ver com a área de atuação dos ministros, e que seriam convites, não convocações.

"Se for convite para uma discussão para esclarecer as coisas, nós somos favoráveis. Nós não vamos colocar nenhuma dificuldade para fazer convite a nenhum ministro."

A nova estratégia governista se ampara no exemplo da convocação de Luiz Antônio Pagot, ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Ele deu dois longos depoimentos no Congresso e não enfrentou maiores problemas para responder aos questionamentos da oposição, na visão dos aliados.

Paulo Passos deve ser o primeiro ministro da lista. A oposição tentou, sem sucesso, convocá-lo no recesso. Agora, os governistas devem concordar com a aprovação de convites para que ele fale sobre as denúncias que levaram à demissão de 22 integrantes da cúpula dos Transportes.

A oposição quer ouvir Passos porque ele era secretário executivo e comandou o ministério no final do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Durante este período, foram assinados diversos aditivos em obras com a anuência dele. Estes aditivos estão agora na berlinda por terem sido apontados como um caminho para inflar o preço de obras e possibilitar o pagamento de propina.

Outro ministro que a oposição quer ouvir é Wagner Rossi. Seu nome foi citado por Oscar Jucá Neto, irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), em entrevista à Veja. Segundo Oscar, o ministério é fonte de corrupção para políticos do PMDB e do PTB.

Oscar citou um caso em que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estaria adiando o repasse de R$ 14,9 milhões a uma empresa de alimentos para barganhar uma comissão de R$ 5 milhões. Denunciou, ainda, a venda de um terreno em área nobre de Brasília por um quarto do valor estimado de mercado para favorecer uma imobiliária que seria laranja de um influente político do PTB. Rossi afirmou que as denúncias são falsas.

A oposição quer ainda explicações de Mário Negromonte. Reportagem da revista IstoÉ afirma que, em 2010, o Ministério das Cidades, já comandado pelo PP, liberou pagamentos irregulares a três grandes empreiteiras que doaram mais de R$ 15 milhões ao partido. O tesoureiro do PP, Leodegar Tiscoski, era secretário de Saneamento Ambiental do ministério. Segundo a revista, o pagamento de obras superfaturadas teria continuado na gestão de Negromonte. O ministro nega a existência do esquema.

No caso do Ministério de Minas e Energia as denúncias atingem a Agência Nacional de Petróleo (ANP), subordinada a Lobão. De acordo com a revista Época, funcionários da ANP cobram propina para resolver pendências de empresas do setor de combustíveis. Além de Lobão, a oposição quer ouvir Haroldo Lima, que preside a ANP.

O ministro Afonso Florence, por sua vez, tem sua presença requisitada para falar sobre denúncias de venda irregular de terras que deveriam ser direcionadas à reforma agrária.

MINISTROS NA BERLINDA

Transportes

O ministro Paulo Sérgio Passos será chamado a dar explicações sobre as denúncias de suposto esquema de propina no Dnit e corrupção no setor. Outro tema em questão é o excesso de aditivos em obras nos Transportes, que foram assinados pelo ministro no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Agricultura

Wagner Rossi está na lista da oposição por conta das denúncias de que um esquema de corrupção teria sido instalado na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e beneficiaria políticos do PMDB e do PT. Rossi é hoje um dos ministros mais próximos do vice-presidente da República, Michel Temer.

Cidades

Mário Negromonte será cobrado por denúncias de que haveria, na pasta comandada por ele, um esquema de liberação de pagamentos irregulares a grandes empreiteiras que fizeram doações eleitorais ao PP, partido do ministro. O suposto esquema foi revelado pela revista IstoÉ. O ministro nega.

Minas e Energia

Também na fogueira, Edison Lobão vai ter de dar respostas aos parlamentares da oposição sobre denúncias - sob investigação no Ministério Público - de que teria havido cobrança de propina na Agência Nacional do Petróleo (ANP), segundo revelou reportagem da revista Época. O caso ocorreu em 2008.

Desenvolvimento Agrário

A oposição quer respostas até do ministro Afonso Florence. Ele será cobrado a respeito de denúncia de venda irregular de terrenos destinados à reforma agrária. Também há queixas recentes de integrantes do MST de que a reforma agrária teria sido abandonada durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.