Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Na fronteira com a Venezuela, em Pacaraima, só tremor une as pessoas

Após críticas e acusações de xenofobia, muitos brasileiros preferem anonimato, e tensão se mantém

Felipe Resk, Enviado especial

21 Agosto 2018 | 22h36

PACARAIMA - Por volta das 18h30 desta terça-feira, 21, um tremor fez trepidar vidraças, balançar móveis e bambear pontos de táxi na cidade. Assustados, brasileiros e venezuelanos correram para ruas e, cena incomum nos últimos dias, ficaram reunidos por alguns instantes. "Era só o que faltava em Pacaraima", comentou um brasileiro, morador da cidade que fica na fronteira com a Venezuela.

O tremor durou poucos minutos e logo os presentes voltaram às reclamações habituais. Recentemente, Pacaraima, no norte de Roraima, tem vivido dias de nervos à flor da pele. A tensão é provocada por troca de acusações entre brasileiros e imigrantes venezuelanos e teve o estopim no último sábado, 18, quando um grupo de moradores soltou bombas caseiras, destruiu objetos e incendiou barracas de refugiados que acampavam na rua. Na ocasião, um carro de som chegou a circular pela cidade incitando os brasileiros a expulsarem os refugiados.

Cerca de 1,2 mil venezuelanos decidiram voltar para o país depois do episódio. O número de refugiados que cruzam a fronteira também tem registrado queda. Desde então, autoridades da polícia local demonstram preocupação sobre possíveis novos conflitos. Por causa do risco, cerca de 60 integrantes da Força Nacional começaram a patrulhar a cidade nesta terça.

"Você viu algum policial aqui no centro? Tudo que eles anunciam é para os venezuelanos", reclamou um brasileiro, que não quis se identificar. Na cidade, a maioria chama o episódio de agressão contra os imigrantes de "protesto", "confusão" ou "aquela bagunça lá". Após críticas e acusações de xenofobia, muitos preferem se manter no anonimato. À tarde, o Estado viu duas viaturas da Força Nacional pelas ruas do centro, voltadas para o comércio.

Entre os brasileiros, o principal argumento é de que os venezuelanos estariam provocando um onda de violência na região, além de dispor de suposta prioridade em unidades de saúde e de assistência.  "Aqui antes era bem tranquilo, agora eu tenho medo de sair à noite", disse o comerciante Jaciento Silva, de 43 anos, que nunca foi assaltado, mas recebe quase diariamente no WhatsApp mensagens de supostos crimes cometidos pelos imigrantes. Um dos que não sabia se era verdade era de um homem encontrado decapitado no lixão.

Pacaraima tem pouco mais de 12 mil habitantes, mas tem recebido fluxos de imigrantes desde 2015. A situação se agravou no ano passado. "A maior parte da nossa população mora em terra de demarcação indígena. Na área urbana mesmo tem uns 5 mil, então os venezuelanos tomaram conta", disse um comerciante. "A população já teve muita paciência", afirmou a dona de casa Erika Oliveira, de 32 anos.

Em mercados, restaurantes e hotéis, muitos funcionários são estrangeiros que conseguiram ser acolhidos no município. Outros tantos, no entanto, estão desempregados e passam a tarde sentados na calçada, olhando o movimento no comércio.

O próprio conflito de sábado foi motivado por um assalto em que a vítima foi roubada e torturada, e reconheceu os agressores como sendo venezuelanos. Depois disso, já não se vê mais as barracas com imigrantes que tomavam as ruas de Pacaraima. "Fizemos uma limpeza", é o comentário mais frequente entre os moradores.

"Foi uma grande humilhação", comentou a imigrante Jaqueline Astudillo, de 35 anos, que exibe um vídeo mostrando que havia cesta básicas entre os itens queimados no ataque. "Por que você não vai perguntar o que aconteceu para um brasileiro", reclamou um morador que, observando a conversa, passou a gravar a reportagem com o celular. Questionado se queria dar sua versão, o rapaz declinou.

Houve aglomeração. Um policial militar desembarcou de uma motocicleta e intercedeu. "Aqui, em Pacaraima está uma tensão muito grande. Eu estou com vergonha da xenofobia das pessoas. Eu mesmo sou da Paraíba, imigrante, por que vamos tratar os outros assim?"

Sem querer se identificar, uma comerciante disse que já foi alvo de vários furtos em seu sítio. "Eles pulam para pegar minhas galinhas", relatou. Segundo conta, também levaram celular, ventilador e outros itens de sua loja. "Pela câmera, consegui ver que era um cadeirante venezuelano. Quando encontrei com ele na rua, ele levantou e saiu correndo", disse a vítima que não acionou a polícia em nenhuma das ocorrências.

Os venezuelanos também têm recorrido a fake news para argumentar. Em uma mensagem que circulou em aplicativos de mensagens, afirmavam que dois imigrantes haviam morrido queimados no sábado. O que a Polícia Civil desmente.

Na delegacia de Pacaraima, um agente confirma que não houve mortos no ataque. Ele também mostra no celular o número de ocorrências só desta segunda que supostamente envolviam venezuelanos - todas, no entanto, da capital Boa Vista. "Piorou demais, todo dia é isso", comentou.

Um dos textos dizia que dois estrangeiros, armados com facas, haviam rendido e roubado um vendedor. "Solicitante informa que venezuelanos entraram em um terreno, mataram um cachorro e estão fazendo um churrasco com ele. Viatura à caminho", afirmava outro registro. 

É difícil, contudo, afirmar quais casos são, de fato, investigados pela polícia. Colado na parede da delegacia, um cartaz orientava o escrivão a tirar quatro cópias de cada boletim de ocorrência de Pacaraima. Um deles era para ser destinado a uma pasta azul, para fins estatísticos. Por WhatsApp, a delegada titular mandou informar que não poderia se manifestar. 

Migração

Na manhã desta terça, era incomum o cenário na tenda da Operação Acolhida, equipamento do Exército para receber e fazer a triagem dos venezuelanos. Em vez das costumeiras filas de refugiados, que até pouco chegavam a dar voltas do lado, havia diversos bancos de espera vazios.

Segundo agentes do local, o fluxo de chegada de venezuelanos caiu de forma brusca desde o último conflito. Se antes cerca de 1,2 mil pessoas cruzavam a fronteira, nesta terça não passavam de 300. "Queimaram todos os meus documentos, só me sobrou a roupa do corpo", diz o engenheiro de sistemas Raul León, de 36 anos, um dos venezuelanos atacados no sábado. Havia cruzado a fronteira na véspera. "A triagem demorou mais de um dia", conta.

León saiu da Venezuela para fugir do desemprego, da falta de comida e de remédios. "Já passei três dias sem comer", diz. "Sei operar redes de comunicação, câmeras de segurança... Me recomendaram trabalhar em Manaus, mas não sei quando vou conseguir ir."

Após as agressões de sábado, León pensou em voltar. "Senti medo, mas depois as coisas foram se acalmando", relata. "Os brasileiros pensaram que foram venezuelanos que agrediram o comerciante. Entendo. Mas nenhuma violência se justifica."

Ao lado da mulher e de cinco filhos, a mais nova de dois anos e o mais velho de 12, o comerciante Gregorio Bello, de 37 anos, estava com a passagem comprada para o Brasil quando recebeu a notícia do incêndio no acampamento. "Não podia devolver, então pensei: 'vamos em nome de Deus'."

O desejo, segundo conta, é chegar a Boa Vista e matricular as crianças na escola. "Até o momento, os brasileiros me atenderam muito bem", diz. "Espero que dê tudo certo."

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